INFECÇÃO PELO VÍRUS DA IMUNODEFICIÊNCIA HUMANA (VIH) E SÍNDROMA DE IMUNODEFICIÊNCIA ADQUIRIDA​

Definição e importância do problema

A síndroma de imunodeficiência adquirida (SIDA) – descrita neste capítulo como exemplo de imunodeficiência secundária – é uma doença provocada por um vírus que destrói os mecanismos de defesa imunitária do organismo (os linfócitos T) expondo-o a diversas infecções oportunistas graves (candidíase esofágica e broncopulmonar, criptococose disseminada do sistema nervoso central, pneumonia intersticial por Pneumocystis jiroveci ou por micobactérias atípicas, etc.). A estas acrescentam-se ainda, em todos os estádios de doença, certas neoplasias como sarcoma de Kaposi e linfomas, raros em idade pediátrica. Trata-se, pois, dum problema grave de saúde pública que comporta elevadas taxas de morbilidade e de mortalidade.

Pouco tempo depois de descritos os primeiros casos em 1981, e do primeiro caso pediátrico em 1982, foram identificados os agentes responsáveis por esta entidade clínica: primeiramente, o vírus da imunodeficiência humana do tipo 1 (VIH1), hoje disseminado em todas as regiões do Mundo; e, mais tarde, o vírus da imunodeficiência humana tipo 2 (VIH2), mais comum em determinadas regiões da África Ocidental, designadamente Guiné.

Os agentes microbianos em causa são retrovírus humanos ARN que se integram no genoma das células-alvo como um pró-vírus, sendo que o genoma vírico é copiado durante a replicação celular, persistindo na pessoa infectada durante toda a vida.

Aspectos epidemiológicos

Apesar de demonstrada a presença do VIH em estado latente em várias células e fluidos corporais, só o sangue, sémen, secreções cervicais uterinas e leite humano estão implicados na transmissão da infecção. São, pois, três as vias de transmissão do VIH: contacto sexual; via percutânea (agulhas e instrumentos cortantes) ou exposição das mucosas a sangue ou outros fluidos corporais com altos títulos de VIH; transmissão vertical mãe-filho, na gravidez, durante o trabalho de parto e pelo aleitamento materno.

Devido a medidas de exclusão de dadores de sangue potencialmente infectados, tratamentos de inactivação vírica de derivados do sangue e utilização desde há alguns anos de factores da coagulação recombinantes, a transfusão de sangue ou produtos derivados tornou-se uma via raríssima de transmissão VIH nos países desenvolvidos.

De acordo com dados da OMS, no final de 2013 havia em todo o mundo cerca de 3,2 milhões de indivíduos com menos de 15 anos infectados com VIH. Estima-se que nesse ano tenha morrido mais de meio milhão de crianças e jovens com tal problema.

Dados disponíveis do Departamento de Doenças Infecciosas /Unidade de Referência e Vigilância Epidemiológica do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA) desde 1983 indicam até Dezembro de 2014 um total de 53.072 casos de infecção por VIH, sendo que o total acumulado em indivíduos menores de 15 anos é de 526 casos de infecção. Cerca de 15.334 correspondem a SIDA (0,8 % em crianças e 17,5% em mulheres, 3/4 das quais em idade reprodutiva).

Portugal tem uma das mais elevadas taxas da UE, com 920 novos casos em 2014. A via sexual foi o modo mais frequente de transmissão nos novos casos, com um decréscimo de casos de infecção associados a consumo de drogas. Nos países industrializados, incluindo Portugal, quase todas as novas infecções das crianças e jovens menores de 15 anos foram adquiridas por via vertical (cerca de 25-40% no decurso da gravidez e, entre 60-75%, durante o parto), sendo poucos os casos de infecção por via sexual. Em 2014 registaram-se 4 novos casos de infecção de transmissão vertical em indivíduos com menos de 15 anos, 2 filhos de mães portuguesas e 2 filhos de mães estrangeiras. A infecção adquirida através de sangue pode acontecer em crianças vindas dos PALOP. Na adolescência surgem os casos de infecção por via sexual, que podem ser diagnosticados só na idade adulta.

Ao aleitamento materno também é atribuído papel de transmissão, que é cerca de 16%, salientando-se que os maiores índices se verificam durante a infecção aguda da mulher lactante, em relação directa com a duração da amamentação, e com a evidência de patologia mamária acompanhada de eliminação de sangue pelo mamilo (fissuras).

Antes do advento da profilaxia ou tratamento com fármacos antirretrovíricos a taxa de transmissão perinatal (vertical ou mãe-filho) do VIH1 era estimada entre 13% e 39%. Com a generalização das estratégias de profilaxia ao longo do tempo têm-se verificado progressos assinaláveis, sobretudo nos países mais desenvolvidos. Em Portugal também se verificou esta tendência, assinalando-se uma redução significativa da transmissão perinatal de VIH1 de 25% (em 1994) para 1,7% (em 2014).

Em relação a VIH2 a taxa de transmissão vertical é pouco provável, estimada em menos de 2%.

A determinante materna de maior risco de transmissão do VIH à criança é uma maior carga vírica (infecção recente). Outros factores associados com um risco aumentado de transmissão incluem: doença materna avançada com imunodeficiência severa, condições intraparto com aumento da exposição do feto ao sangue materno, inflamação da membrana placentária, parto prematuro, parto prolongado, ruptura prolongada de membranas e co-infecção com vírus da hepatite C e outras doenças sexualmente transmissíveis. O aleitamento materno em países onde não é possível a sua evicção constitui também um risco adicional importante.

É possível hoje, tendo em conta os factores de risco mencionadas, diminuir a transmissão vertical de VIH para menos de 2% com estratégias que incluem:

  • uma terapêutica antirretrovírica adequada à mãe de modo a manter cargas víricas indetectáveis na gravidez;
  • cesariana electiva e profilaxia antirretrovírica na gravidez, no parto e ao RN, dependendo do risco em causa; e,
  • evicção do aleitamento materno.

Manifestações clínicas

A infecção por VIH na criança e no adolescente origina um largo espectro de manifestações clínicas e uma evolução variada, representando a SIDA o espectro clínico terminal mais grave.

A história natural da infecção pelo VIH caracteriza-se por um período assintomático muito variável. A progressão da doença depende de factores como: as características do vírus, carga vírica, grau de imunossupressão, precocidade da terapêutica e da adesão à mesma.

A apresentação clínica varia com o grau de imunossupressão. Entre outros sinais e sintomas, crianças com imunodeficiência ligeira podem apresentar linfadenopatia, hepatomegália, esplenomegália, parotidite; com imunodeficiência moderada pode haver infecções bacterianas recorrentes, candidíase arrastada, diarreia crónica, pneumonia intersticial linfóide (LIP), anemia, neutropénia e trombocitopénia; manifestações de imunodeficiência grave a muito grave incluem infecções oportunistas (pneumonia por Pneumocystis jiroveci, infecções invasivas por Candida, infecção disseminada por Citomegalovírus, infecções crónicas ou disseminadas por Herpes simplex ou Varicela zoster, infecção por Mycobacterium tuberculosis, Mycobacterium avium complex disseminada, enterites crónicas por Cryptosporidium ou Isospora), atraso acentuado do desenvolvimento (wasting syndrome), encefalopatia, e tumores malignos (raros na criança).

De acordo com critérios propostos pelos CDC e AAP para idades <13 anos, são consideradas quatro formas clínicas agrupando um conjunto de determinados sinais, sintomas e de resultados de exames complementares, a saber:

Forma assintomática ou N

Nesta forma clínica verifica-se ausência de sintomatologia ou apenas um dos parâmetros da forma clínica seguinte-A.

Forma ligeira ou A

Esta forma caracteriza-se pela verificação de dois ou mais dos parâmetros seguintes desde que não se verifique qualquer dos que fazem parte das formas B ou C.

Os parâmetros que definem a forma A são: hepatomegália, esplenomegália, parotidite, linfadenopatia (de dimensões superiores a 0,5 cm em duas cadeias ganglionares diferentes).

Forma moderada ou B

Esta forma integra os seguintes parâmetros: Hb < 8g/dL, neutrófilos < 1.000/mm3, meningite bacteriana, sépsis ou pneumonia, candidíase oral durando > 2 meses, miocardiopatia, febre > 1 mês, varicela disseminada ou complicada, toxoplasmose no RN, nefropatia, nocardiose, pneumonia intersticial linfocitária-PIL ou LIP, herpes zoster com 2 episódios em mais de um dermátomo, > 2 episódios anuais de estomatite por vírus Herpes simplex (HSV), pneumonite ou esofagite por HSV no RN, hepatite, diarreia recorrente ou crónica, infecção por CMV no RN.

Forma grave ou C

Para se incluir o caso nesta forma é condição necessária a verificação de qualquer dos parâmetros a seguir mencionados, exceptuando a LIP: infecções bacterianas graves e recorrentes, sistémicas ou localizadas, confirmadas por exame cultural com a frequência de, pelo menos, 2 episódios por ano; encefalopatia persistindo mais de 2 meses, comprovada por exames imagiológicos-TAC, RM; linfoma; sarcoma de Kaposi; desnutrição grave acompanhada de diarreia crónica, febre de duração superior a 30 dias; toxoplasmose cerebral iniciada após o período neonatal, histoplasmose disseminada, estomatite/esofagite/ pneumonite por HSV em crianças de idade superior a 1 mês e de duração superior a 1 mês; pneumonia por Pneumocystis; infecções disseminadas por micobactérias de diversas espécies; infecções por CMV após o período neonatal; candidíase esofágica ou pulmonar; coccidioidomicose disseminada; criptococose; diarreia crónica por criptosporidíase ou isosporíase.

Exames complementares

A suspeita de infecção é levantada pelo conhecimento de dados epidemiológicos indicadores de exposição provável ao vírus, ou pela existência de sinais e sintomas sugestivos de infecção. A precocidade do diagnóstico possibilita a adopção de medidas de profilaxia e terapêutica numa fase ainda com a imunidade preservada e, deste modo, o prolongamento do período assintomático e a consequente melhoria da qualidade de vida da criança e da família.

Como se disse, a infecção por VIH na criança nos países desenvolvidos incluindo é quase exclusivamente adquirida por via vertical. O primeiro passo é, pois, a identificação da infecção na mãe, pelo que se recomenda a realização de estudo serológico para VIH em todas as grávidas, sendo que a primeira avaliação deveria ser mesmo pré-concepcional.

O conhecimento da infecção em tempo útil na mãe tem múltiplas vantagens permitindo:

  • na mulher infectada:
    • receber terapêutica antirretrovírica apropriada e profilaxia contra infecções oportunistas;
    • efectuar quimioprofilaxia com antirretrovíricos; e
    • programar cesariana electiva para prevenção da transmissão à criança e impedir o aleitamento materno, dependendo da situação; e,
  • no recém-nascido:
    • iniciar quimioprofilaxia antirretrovírica e profilaxia para o Pneumocystis jiroveci nos casos de exposição até se saber se existe ou não infecção; e
    • facilitar o diagnóstico e terapêutica precoces da infecção.

O diagnóstico é sempre laboratorial (com excepção dos países mais pobres onde se aceita o diagnóstico de SIDA, com base na aplicação dos critérios clínicos e epidemiológicos definidos pela OMS), dispondo-se para tal de exames serológicos e virológicos.

O diagnóstico de infecção na criança com menos de 18 meses é feito por PCR-DNA.

Após um resultado positivo deve ser efectuada de imediato outra colheita para confirmação.

A PCR-DNA, por necessitar de menor quantidade de sangue e pelo facto de os respectivos resultados serem mais rápidos, deve ser o método escolhido.

O diagnóstico provável de infecção por VIH na criança é feito com um destes testes positivo procedendo a duas colheitas. O diagnóstico definitivo é efectuado com dois resultados positivos.

→ nos RN de mães seropositivas para o VIH, a PCR-DNA ou o exame cultural devem ser efectuado nas primeiras 48 horas de vida, entre o 1º e o 2º mês, e entre o 4º e o 6º mês. Se os resultados forem negativos, deve realizar-se estudo serológico para VIH por ELISA / WB de 3 em 3 meses e, depois, entre o 1 ano de idade e os 18 meses.

→ para o diagnóstico de infecção na criança com mais de 18 meses é suficiente o resultado de serologia positiva (ELISA / WB), que deve ser sempre confirmada. A determinação da carga vírica (PCR-RNA) é usada para avaliar a evolução e resposta ao tratamento.

diagnóstico de infecção por VIH pode ser excluído com elevada probabilidade se:

  • dois ou mais exames virológicos forem negativos, desde que efectuados com idade igual ou superior a 1 mês, e um deles, obrigatoriamente, com idade superior a 4 meses, em criança sem evidência clínica de infecção e não sendo alimentada com leite materno; ou :
  • dois ou mais resultados serológicos negativos para VIH, se a idade for igual ou superior a 6 meses, com, pelo menos, um mês de intervalo, em criança sem evidência clínica de infecção.

A infecção por VIH pode ser definitivamente excluída aos 18 meses se o resultado do estudo serológico for negativo, na ausência de hipogamaglobulinémia, em criança sem evidência clínica de infecção e com resultados de estudos virológicos negativos.
A contagem de linfócitos T CD4+ por citometria de fluxo constitui uma técnica fundamental para determinar o estádio imunológico da infecção, de modo a orientar:

  1. o início da terapêutica antirretrovírica (sabendo-se que a tendência é para se iniciar o mais precocemente possível, independentemente do valor dos linfócitos TCD4+); e
  2. a profilaxia das infecções oportunistas.

Cabe referir, a propósito, que os valores de referência na criança até aos seis anos de idade são mais elevados do que no adulto; por outro lado, é importante salientar que poderá haver discordância entre ausência ou presença de sintomatologia, e ausência ou presença de sinais de imunossupressão.

O Quadro 1 apresenta os valores de linfócitos T CD4+ em três grupos etários até aos 13 anos, em relação com o grau de compromisso imunológico.

QUADRO 1 – Valores de CD4 + de acordo com a idade

Alteração imunológica Contagem de CD4 e idade
< 12meses 1 a 6 anos 6 a 12 anos
Ausente 1 >1500 (>20%) >1000 (>25%) >500 (>25%)
Moderada 2 750-1499 (15-24%) 500-999 (15-24%) 200-499 (15-24%)
Severa 3 <750 (<15%) <500 (<15%) <200 (<15%)

Tratamento

O tratamento da infecção por VIH na criança tem-se tornado cada vez mais complexo e a prescrição de antirretrovíricos deverá ser dirigida por um especialista com experiência nesta área em centros especializados. A escolha dos regimes deve ter em conta que se trata de uma terapêutica para toda a vida e que a adesão é fundamental para obviar o aparecimento de resistências, que vão dificultar as opções terapêuticas no futuro.

O controlo eficaz das necessidades de uma criança infectada obriga necessariamente à disponibilidade de uma equipa multidisciplinar incluindo médico de família, pediatra, infecciologista, enfermeiro, imunologista, virologista, psicólogo, assistente social, farmacêutico e dietista.

Torna-se igualmente necessário proceder à monitorização regular da contagem de linfócitos T CD4+ e da carga vírica no pressuposto de se ter acesso ao perfil genotípico das resistências aos antirretrovíricos.

Há muitos factores a considerar no planeamento de um regime antirretrovírico como: disponibilidade; tolerância; eficácia; farmacocinética; formulações disponíveis; efeitos secundários dos medicamentos; interacção com outros medicamentos e alimentos. Há também que ter em conta o seu impacte na escola, família e vida social.

Antes de se iniciar a terapêutica deve ser efectuado um teste genotípico de resistências, para verificar se há resistências primárias e determinar o genótipo HLA-B5701 para evitar reacções adversas ao abacavir. É também importante esclarecer e formar intensivamente a família, treinando-a na administração dos medicamentos, explicando a importância da adesão e esclarecendo dúvidas. É necessário ainda o seguimento intensivo durante os meses iniciais da terapêutica e a verificação da tolerância, efectuando a monitorização dos linfócitos T CD4+ e da carga vírica, adaptando as doses ao crescimento da criança.

Início da terapêutica antirretrovírica (TAR)

De acordo com as Recomendações Portuguesas para o tratamento da infecção por VIH1 e VIH2, (versão de 2015 da DGS) deve iniciar-se terapêutica antirretrovírica (TAR) nas seguintes situações:

  • Lactentes com o diagnóstico de infecção por VIH (crianças com < 12 meses de idade) independentemente da clínica, valores de CD4+ e carga vírica;
  • Crianças com clínica significativa (formas B ou C);
  • Crianças com idade de 1 ano ou >, assintomáticas ou com sintomas ligeiros (que não se enquadram, no entanto, na forma A) perante valores de CD4+ :
  • *< 25% ou < 1000/mmc entre 1 e 3 anos de idade;
  • *< 25% ou < 750/mmc entre 3 e 5 anos de idade;
  • *< 500/mmc acima dos 5 anos.
  • Crianças com > 12 meses e carga vírica > 100.000 cópias/mL.

Os objectivos da TAR são reduzir a carga vírica para níveis indetectáveis e preservar ou normalizar a função imune impedindo a progressão da doença e tentando reverter eventual doença de órgão já estabelecida.

Fármacos e esquemas terapêuticos

São vários os fármacos antirretrovíricos disponíveis (por vezes em associação) para tratamento da criança e adolescente. Seguidamente são assinalados alguns exemplos com siglas universais tendo em conta o respectivo mecanismo de acção:

  • Inibidores da Transcriptase Reversa Nucleósidos / ITRN: abacavir (ABC), didanosina (ddI), emtricitabina (FTC), lamivudina (3TC), tenofovir (TDF), zidovudina (ZDV, ou AZT).
  • Inibidores da Transcriptase Reversa Não Nucleósidos / ITRNN: efavirenz (EFV), etravirina (ETV), nevirapina (NVP), rilvipirina (RPV).
    Associações mais utilizadas: TDF+FTC, TDF+FTC+EFV.
  • Inibidores da Protease / IP: atazanavir (ATV), darunavir (DRV), fosamprenavir (FPV), lopinavir (LPV). Têm que ser potenciados com ritonavir (r).
  • Inibidores da Fusão: enfuvirtide (T-20).
  • Inibidores da Entrada: maraviroc (MVC).
  • Inibidores da Integrase: dolutegravir (DLV), raltegravir (RAL).

Actualmente o regime de 1ª linha preferido em crianças sem terapêutica prévia e sem evidência de resistência aos antirretrovíricos engloba: 2 ITRN + 1IP (em crianças com < 3 anos prevendo adesão irregular) ou 2ITRN + 1ITRNN. Relativamente a IP prefere-se a combinação LPV/r para crianças pequenas; e outras combinações para crianças mais velhas: FPV/r, ou ATV/r, ou DRV/r.

A utilização dos diversos fármacos tem em conta a idade e o peso do paciente.

A terapêutica pode ser alterada nos casos de toxicidade ou falência.

Em suma: a prescrição dos antirretrovíricos deve ser cuidadosamente ponderada e individualizada tendo em conta todos os factores apontados, pois, para além das repercussões que possa vir a ter na sobrevivência e na qualidade de vida das crianças infectadas, tem custos muito elevados.

Prevenção

Para a prevenção da transmissão vertical da infecção pelo VIH na criança é importante a adopção das seguintes medidas:

  • rastreio da infecção na grávida;
  • realização de cesariana electiva, sempre que possível;
  • terapêutica antirretrovírica na grávida e recém-nascido; e
  • evicção do aleitamento materno.

No caso de a grávida ter um seguimento adequado, com carga vírica indetectável, pode questionar-se a necessidade de cesariana e profilaxia no RN.

Em relação à terapêutica antirretrovírica na grávida e recém-nascido, o esquema utilizado durante a gravidez deverá ser sempre discutido com a mulher, colocando à sua disposição os conhecimentos actuais sobre os riscos e benefícios da administração dos vários antirretrovíricos. Há que ter em conta os cenários possíveis:

  • Mulher submetida a terapêutica antirretrovírica combinada (TARc) durante a gravidez e com carga vírica indetectável, perto do parto, a profilaxia intraparto não é necessária (nos casos de gravidez de termo, sem corioamnionite e sem descolamento placentário), devendo ser administrado AZT “per os” ao RN tão precocemente quanto possível, nas primeiras 4-12 h de vida (é pouco provável que o início depois das 48h tenha algum benefício) e durante 4 semanas.
  • Mulher submetida a TARc e com carga vírica detectável ( < 1000 cópias/mL), perto do parto, AZT intraparto dispensável, se existir comprovada adesão à TARc e evolução favorável da carga vírica, assim como ausência de factores de risco intraparto para transmissão mãe-filho (descolamento placentar, hemorragia, corioamnionite). Caso contrário, deve administrar-se AZT em perfusão ev a iniciar existindo contracções regulares ou ocorrendo ruptura de bolsa de águas, no caso de parto vaginal; ou 3h antes no caso de cesariana electiva e sempre até à laqueação do cordão. Ao RN deve ser administrado AZT durante 4 semanas.
  • Mulher submetida a TARC há menos de 4 semanas ou com carga vírica desconhecida, AZT em perfusão ev + NVP 200 mg “per os” em toma única. Considerar profilaxia combinada no RN, AZT+3TC (4 semanas) + NVP (2 semanas).
  • Mulher submetida a TARc em falência virológica, com carga viríca > 1000 cópias /mL, AZT em perfusão ev; a associação de outros fármacos depende do teste de resistências. No RN: AZT “per os” durante 4 semanas; ponderar regime combinado com base no teste de resistência materno.
  • Mulher em trabalho de parto, sem ter sido medicada com TARc durante a gravidez, deve proceder-se a colheita de sangue para determinar carga vírica e estudo de subpopulações linfocitárias, AZTem perfusão ev+ NVP 200mg “per os” dose única + 3TC 150mg “per os”12/12h. Após o parto deverá manter-se terapêutica com AZT+3TC de 12/12h durante 7 dias ou AZT+3TC+ um inibidor da protease potenciado com ritonavir também durante 7 dias. No RN considerar profilaxia combinada, AZT + 3TC (4semanas) + NVP (2 semanas).
  • Mulher não submetida a TARc na gravidez, sem profilaxia intraparto, administrar profilaxia combinada no RN, AZT + 3TC (4 semanas) + NVP(2 semanas).

A grávida infectada por VIH deve ser seguida em Consulta de Alto Risco, sendo ainda necessário rastrear outras doenças transmissíveis (por citomegalovírus, Herpes simplex 2, toxoplasmose, hepatites B e C, tuberculose, sífilis, gonorreia e por Chlamydia).

A puérpera deve ser encaminhada para uma Consulta de Planeamento Familiar.

Para prevenção das infecções secundárias na criança com infecção por VIH devem ser instituídas medidas adequadas, as quais constituem um pilar essencial no tratamento das mesmas. A profilaxia das infecções secundárias deve ser efectuada pela administração de vacinas, imunoglobulinas e antimicrobiano.

Vacinas

Aos filhos de mulheres seropositivas, com infecção indeterminada ou infectadas, devem ser administradas todas as vacinas inactivadas de acordo com o actual Programa Nacional de Vacinação.

A vacinação com BCG não deverá ser administrada às crianças infectadas (mesmo assintomáticas), pelo que a vacinação dos filhos de mulheres seropositivas deverá ser adiada até que a infecção por VIH seja excluída.

A vacina anti-sarampo, parotidite e rubéola (VASPR) deve ser dada a crianças assintomáticas ou ligeiramente sintomáticas, com contagem de linfócitos CD4+ ≥15% (contraindicada, no entanto, se houver sinais de imunossupressão grave, declínio rápido do número ou percentagem de CD4+ e em crianças com a forma grave de doença). Deve ser administrada, de preferência, aos 12 meses ou até antes (entre os 6 e os 9 meses) se o risco de agravamento da doença e/ou o risco de exposição ao sarampo for elevado.

Em relação à vacina antipneumocócica, deve efectuar-se um reforço com a vacina com polissacáridos 23-valente, 3 a 5 anos depois.

A vacina antivaricela deve ser considerada em crianças assintomáticas ou ligeiramente sintomáticas com contagem de linfócitos CD4+ ≥25%.

A vacina antigripe deve ser administrada no princípio do Outono às crianças com mais de 6 meses de idade e a todos os seus contactos, incluindo o(s) progenitor(es) seropositivo(s).

Em relação à vacina antipneumocócica deve efectuar-se um reforço com a vacina com polissacáridos 23-valente, 3 a 5 anos depois.

A vacinação com BCG não deverá ser administrada às crianças infectadas (mesmo assintomáticas), pelo que a vacinação dos filhos de mulheres seropositivas deverá ser adiada até que a infecção por VIH seja excluída.

Imunoglobulinas

A administração regular (mensal) de imunoglobulina inespecífica intravenosa (IGIV na dose de 400 mg/kg cada 2 a 4 semanas) está indicada em situações de hipogamaglobulinémia (IgG < 250 mg/dL), ausência de resposta humoral a antigénios comuns (vacinas, por exemplo), infecções bacterianas, graves e recorrentes, e crianças vivendo em área endémica de sarampo e sem resposta a 2 doses de vacina.

Tal administração de imunoglobulinas, cuja duração varia em função do contexto clínico, deve também ser considerada em situações pós-exposição a hepatite B, tétano, varicela e sarampo.

Antimicrobianos

Para a prevenção da pneumocistose nas crianças infectadas de acordo com os valores de linfócitos T CD4+ (< 12 meses todos; 1 a 5 anos CD4 < 500 ou <15%; 6 a 12 anos CD4 <200 ou <15%) e nas crianças com menos de 12 meses de idade e até se excluir a infecção, desde que não amamentadas; utiliza-se o trimetoprim-sulfametoxazol (cotrimoxazol), a iniciar pelas 4 semanas de idade na dose de sulfametoxazol de 40 mg/kg/dia , habitualmente em dose única diária, trissemanalmente, em dias seguidos ou alternados.

A azitromicina na dose de 20 mg/kg semanal é utilizada para a profilaxia da infecção por Mycobacterium avium complex (MAC) nas crianças infectadas de acordo com os valores de linfócitos TCD4+: < 12 meses, se CD4 <750; 1 a 2 anos, se CD4 <500; 2 a 6 anos, se CD4 <75; > 6 anos, se CD4 <50).

Seguimento

Dados os problemas habitualmente associados a crianças e famílias com tal patologia (dificuldade de que se reveste o seguimento destas crianças – e de suas mães – decorrentes da complexidade da patologia, da necessidade de aplicação de esquemas terapêuticos rigorosos e de contextos económicos e sociais habitualmente complicados), o acompanhamento deve ficar a cargo de equipas multidisciplinares experientes e proactivas, possível em consulta própria, de modo a propiciar apoio eficaz, eficiente e efectivo. Chama-se, entretanto, a atenção para a necessidade de promover uma boa articulação com as equipas médicas e de enfermagem no âmbito dos Cuidados de Saúde Primários, igualmente implicadas nos cuidados a prestar os quais deverão primar pela qualidade e em espírito de humanização.

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IMUNODEFICIÊNCIAS PRIMÁRIAS ​

Definição e importância do problema

As imunodeficiências primárias (IDP) representam um grupo heterogéneo de patologias decorrentes de defeitos genéticos hereditários que afectam diferentes componentes do sistema imune. Caracterizam-se por uma predisposição aumentada para infecções, doenças autoimunes, linfoproliferativas, atópicas e neoplásicas. Actualmente estão descritas cerca de 350 patologias monogénicas, o que se deve ao avanço na área laboratorial dos testes genéticos.

A prevalência estimada é de 6:100000, com uma incidência de 1:3000 a 1:4000. No entanto, estes achados variam muito entre países: como exemplos, referidos à idade pediátrica, citam-se a França com prevalência de 3,72/ 100.000 e os EUA com 50-83/ 100.000. A frequência, mais elevada em países com elevada consanguinidade, tem aumentado, provavelmente porque os clínicos estão cada vez mais alertados e houve progressos no âmbito dos meios de diagnóstico disponíveis.

O tempo médio entre a primeira consulta e o eventual diagnóstico de IDP varia entre 9 meses a 4,7 anos, sendo que o atraso no diagnóstico e, consequentemente, no início da terapêutica, determinam incremento da morbilidade associada e da mortalidade. Assim, tornam-se fundamentais o elevado índice de suspeição bem como o diagnóstico atempado.

Fisiopatologia e classificação

O sistema imune inato é constituído por células de origem hematopoiética (macrófagos, células dendríticas, natural killer), pela pele e células epiteliais que revestem os tractos gastrintestinal, respiratório e génito-urinário, e ainda por um componente humoral (proteínas do complemento, proteínas de ligação aos lipopolissacáridos (LPS) e péptidos antimicrobianos. As proteínas do complemento são uma classe importante de mediadores solúveis da resposta imune inata contribuindo para promover a inflamação e a morte de microrganismos extracelulares. Relativamente a outros mediadores solúveis, os mais importantes são as citocinas e as quimocinas, produzidas sobretudo pelos macrófagos e células T.

O sistema imune adaptativo é filogeneticamente mais tardio e aparece nos organismos superiores. Envolvendo processos altamente específicos de reconhecimento de substâncias estranhas (antigénios), integra os linfócitos e seus produtos, tais como os anticorpos.

Os anticorpos produzidos pelos linfócitos B reconhecem antigénios extracelulares, enquanto os linfócitos T reconhecem antigénios produzidos por microrganismos intracelulares. Outra diferença importante entre ambos, baseia-se no facto de os linfócitos T reconhecerem apenas antigénios proteicos enquanto os anticorpos são capazes de reconhecer diferentes tipos de moléculas incluindo proteínas, hidratos de carbono e lípidos.

Em suma, considera-se que o sistema imune, por conveniência clínica e fisiopatológica, é constituído por:

  • Linfócitos B (imunidade humoral)
  • Linfócitos T (imunidade celular)
  • Sistema fagocitário (polimorfonucleares e mononucleares)
  • Sistema do complemento (relacionado com a opsonização)*

*Opsonização: revestimento do antigénio por algumas fracções do complemento, anticorpos/imunoglobulinas, ou ambos, o que facilita a fagocitose por células competentes, que apresentam receptores para aqueles.

International Union of Immunological Societies (IUIS) actualizou recentemente a classificação deste grupo de doenças, tendo em conta os novos genes descobertos.
Tal classificação, baseada no componente do sistema immune predominatemente afectado, tem como objectivo proporcionar uma linha condutora na abordagem diagnóstica. De facto, qualquer classificação de doenças humanas é algo arbitrária e a das imunodeficiências primárias não é excepção.
Nesta perspectiva, distinguem-se classicamente nove grupos de IDP, com prevalência variável, discriminados no Quadro 1. são discriminados nove grupos de IDP, a saber: Dado que os conceitos fisiopatológicos descritos têm relação com certos tópicos da Reumatologia, sugere-se ao leitor a consulta da respectiva Parte do livro.

QUADRO 1 – Classificação das imunodeficiências primárias

Grupos Algumas formas clínicas
1. Imunodeficiências combinadas de células B e T (predominantemente células T)
(Prevalência – 7,46%)
Imunodeficiência combinada grave (SCID); Défice de CD40L; Défice ZAP 70; Síndroma de Omenn; TAP1, TAP2, MAGT1, ITK, PNP; defeitos de reparação do DNA
2. Deficiências de anticorpos
(Prevalência – 56,66%)
Agamaglobulinémia AR (BLNK, TCF3, PIK3R1, CD79) ou ligada ao X (BTK); Imunodeficiência comum variável (ICOS, CD19, CD81, CD20, CD21, TACI, LRBA, BAFFR); S. Hiper IgM (CD40, CD40 ligando; UNG, AID); Défices específicos de anticorpos; Défices de subclasses de IgG; Défice selectivo de IgA.
3. Outras síndromas bem definidas de imunodeficiência
(Prevalência 13,99%)
Síndroma de Wiskott-Aldrich; Ataxia-telangiectasia; Síndroma de Hiper IgE; Síndroma de DiGeorge; Imunodisplasias ósseas
4. Doenças por imunodesregulação
(Prevalência – 3,89%)
Imunodeficiências com hipopigmentação; Linfo-histiocitose hemofagocítica familiar; Síndromas linfoproliferativas ligadas ao X; Síndromas linfoproliferativas autoimunes.
5. Defeitos da fagocitose e psonização
(Prevalência – 8,73%)
Neutropénia congénita grave; Neutropénia cíclica; Doença granulomatosa crónica AR ou ligada ao X; Defeitos adesão leucocitária (LAD1, 2, 3); Susceptibilidade mendeliana às micobactérias; GATA2
6. Defeitos da imunidade inata
(Prevalência 1%)
Displasia ectodérmica anidrótica com imunodeficiência; Deficiência do receptor da IL-1 associado a cinase 4 (IRAK 4); Candidíase mucocutânea crónica; Encefalite a Herpes simplex
7. Doenças auto-inflamatórias
(Prevalência 2,06%)
Febre mediterrânica familiar; Síndromes de febre periódica; Síndrome de Hiper IgD; Criopirinopatias
8. Defeitos do complemento
(Prevalência 4,89%)
Deficiência dos vários componentes da via clássica e alternativa do complemento; Angioedema hereditário (C1q)
9. Fenocópias Mutações somáticas (ALPS-sFAS, KRAS ou NRAS); Auto-anticorpos: candidíase mucocutânea (IL17, IL22); Proteinose alveolar pulmonar (GM-CSF); Infecções cutâneas recorrentes (IL6)

Manifestações clínicas

Em 1993 fora publicados pela primeira vez os dez sinais de alarme de IDP pela Jeffrey Modell Foundation (JMF). Quando presentes dois ou mais deve suspeitar-se de uma IDPNo entanto, actualmente considera-se que este critério tem limitações, pois não abrange as patologias autoimune, linfoproliferativa, nem neoplásica.

Na consulta de IDP do Hospital de Dona Estefânia, Lisboa, foram adoptados os seguintes critérios como sinais de alarme e justificação para investigar o quadro clínico:

1. Infecções persistentes ou de repetição

  • ≥ 8 Episódios de otite média aguda (OMA)/ ano
  • ≥ 2 Sinusites/ ano
  • ≥ 2 Pneumonias com menos de 3 anos de intervalo
  • Diarreia crónica e/ou má progressão ponderal
  • ≥ 2 Meses de antibioticoterapia com fraca resposta
  • Necessidade de antibioticoterapia por via endovenosa para resolução das infecções
  • Ausência de seroconversão após infecção por certos agentes (especialmente vírus, como vírus de Ebstein-Barr/VEB)
  • Infecções de repetição ou colonização por vírus
  • Bronquiectasias

2. Infecção grave por germe comum

  • ≥ 2 Episódios da seguinte patologia: meningite, septicémia, celulite, osteomielite, artrite, adenofleimão, abcesso.
  • Primeira infecção grave com a seguinte patologia comprovada: pneumonia com abcesso ou pneumatocele, abcessos viscerais, doença invasiva por Salmonella, doença invasiva causada por Streptococcus pneumoniae ou Neisseria meningitidis após os dois anos de idade, infecção disseminada por micobactérias (Mycobacterium tuberculosis bovis, micobactérias atípicas).
  • BCGite, com compromisso de, pelo menos, dois territórios ganglionares.
  • Infecção grave por vírus, nomeadamente por VEB (meningite, doença linfoproliferativa, mononucleose infecciosa fulminante), Enterovirus (meningoencefalite crónica, sépsis ou hepatite fulminante), Parainfluenza 3 ou HSV-1.

3. Infecção por germe incomum ou em localização incomum

  • Infecção grave por fungos (Pneumocystis jiroveci, Scedosporium sp., Criptosporidium sp., Candida sp., Criptococcus neoformans, Histoplasma capsulatum).
  • Pneumonias por Salmonella, meningites por agentes normalmente não invasivos.
  • Falências vacinais contra o Haemophilus influenza tipo B, Streptococcus pneumoniae e Neisseria meningitidis serogrupo C.

4. Desregulação imune e alergia

  • Fenómenos autoimunes exuberantes, especialmente em crianças com idade inferior a dois anos.
  • Linfo-histiocitoses (incluindo síndroma de activação macrofágica).
  • Fenómenos alérgicos exuberantes em crianças com outras manifestações hematológicas ou imunológicas.

5. Antecedentes familiares de imunodeficiência

  • Mortes precoces na família, abortos de repetição.

6. Outros

  • Eczema grave, aparecimento no primeiro ano de idade e refractário à terapêutica.
  • Doença inflamatória intestinal / colite de início precoce.

Diagnóstico

O diagnóstico precoce das IDP requer um elevado índice de suspeição. A inespecificidade das manifestações clínicas, aliada à relativa raridade, pode motivar atraso na prossecução do objectivo.

A investigação inicial requer a realização de uma anamnese minuciosa. É essencial a exclusão de alterações não imunológicas que podem também predispor a infecções recorrentes, tais como a fibrose quística, inalação de corpo estranho, asma, rinite alérgica, eczema, doenças metabólicas, asplenia congénita, síndroma dos cílios imóveis ou anomalias anatómicas, como as fístulas traqueoesofágicas. Devem também ser excluídas causas secundárias de hipogamaglobulinémia: fármacos (captopril, carbamazepina, antimaláricos, citostáticos, glicocorticóides, fenitoína); infecções graves congénitas ou adquiridas (vírus da imunodeficiência humana, rubéola congénita, citomegalovírus, toxoplasma, vírus de Ebstein Barr, sarampo, tuberculose); desnutrição; doenças malignas e causas de perda excessiva de imunoglobulinas (síndroma nefrótica, queimaduras graves, linfangiectasia, diarrreia crónica ou enteropatia exsudativa). No que respeita aos antecedentes familiares é muito importante inquirir sobre a eventual ocorrência de mortes precoces de causa desconhecida, consanguinidade parental, bem como outros casos IDP na família.

exame objectivo é fundamental e pode orientar o diagnóstico; contudo, um exame físico normal não exclui a presença de IDP . No Quadro 2 estão descritos alguns sintomas e sinais mais específicos associados a algumas IDP.

QUADRO 2 – IDP: Principais achados no exame físico

Alteração ao Exame Físico IDP associada
Displasia ectodérmica Defeito NEMO/ NFKB1, IKBA, ORAI-1; STIM-1;
Síndroma de Comel-Netherton
Alopécia RAG1/2 (Omenn), Defeito FOXN1
Miopatia ORAI-1; STIM-1; S. Barth
Alterações neurológicas Defeito PNP, Síndroma de Chediak-Higashi;
Síndroma de Kostmann
Baixa estatura STAT5b, MCM4, S FILS, Hipoplasia cartilagem-cabelo, Síndroma de Shwachman-Diamond, Síndroma de Bloom; Síndroma de Schimke
Múltiplas atresias intestinais Defeito TTC7A
Surdez/ alterações auditivas Disgenesia reticular, ADA, defeito GATA2
Conjuntivite/ uveíte Febre periódica (TRAPS, Hiper IgD)
Linfoproliferação/ adenopatias ALPS
Eczema Síndroma de Wiskott-Aldrich, DOCK8, STAT3, ITCH, Síndroma de Comel-Netherton; Síndroma de Omenn
Vasculite Defeito C2, C7; defeito MCH1
Urticária pelo frio Defeitos NLRP3, Defeito PLCG2
Proteinose alveolar pulmonar Defeito GATA2, CSF2RA; Auto Acs GM-CSF
Enteropatia/ Doença inflamatória intestinal Defeitos IL10, LRBA, NOD2, XLP2, STXBP2/MUNC18-2; CGC, CVID, IPEX
Endocrinopatias APECED, IPEX, Delecção cromossoma 22q11.2
Doença pulmonar Defeito ITCH, LRBA
Pneumatoceles Defeito STAT3
Periodontite LDA, Síndroma Hiper IgM,
Periodontite juvenil localizada
Linfedema Defeito GATA2
Osteomielites Defeito antagonista do receptor IL-1, Síndroma de Majeed
Psoríase DITRA 8IL36RN); CAMPS (CARD14)
Albinismo parcial Síndroma de Chediak-Higashi, Síndroma de Griscelli;
Síndroma de Hermanansky Pudlak
Candidíase mucocutânea Deficiência Dectina 1, CARD9, IL 17F, IL 17RA, ACT1; APECED, STAT1 GOF

A investigação laboratorial deve ser realizada por fases e orientada em função da clínica. Nos Quadros 3 e 4 encontram-se discriminados os exames auxiliares de diagnóstico, sendo que a normalidade dos exames de primeira linha não invalida, perante um caso suspeito, a continuidade do estudo com os de segunda linha. Os resultados devem ser sempre interpretados de acordo com a idade do doente. É igualmente importante a programação antecipada das colheitas de produtos biológicos e a comunicação com o laboratório de referência.

A orientação para uma consulta de especialidade é fundamental em todos os casos em que surjam resultados anómalos ou duvidosos dos exames complementares iniciais.

Os exames de imagem (radiografia, ecografia, tomografia axial computadorizada, ressonância magnética) podem contribuir para a caracterização do grau de repercussão sistémica, resposta ao tratamento e avaliação de complicações .

Nas últimas décadas os avanços na biologia molecular permitiram a identificação dos genes responsáveis pela maioria das IDP. O diagnóstico pré-natal, realizado a partir de amostras de sangue fetal, células do líquido amniótico ou de biópsia das vilosidades, é actualmente possível em algumas situações, tais como a deficiência da adenosina desaminase (ADA) e o défice de adesão leucocitária (LAD). Com efeito, os progressos têm possibilitado uma melhoria nos cuidados prestados às crianças permitindo um diagnóstico mais precoce, e às suas famílias propiciando aconselhamento genético.

QUADRO 3 – Suspeita de IDP: exames complementares de primeira linha

Exames Complementares de Primeira Linha Notas
Hemograma com Contagem Diferencial das Células ·  Linfopenia: pode orientar para défice combinado (formas TB+ podem ter número total de linfócitos preservado)
·  Alteração do número dos neutrófilos nos defeitos da fagocitose
·  Trombocitopenia/anemia, em doenças autoimunes; Síndroma de Wiskott-Aldrich
Doseamento das Imunoglobulinas (Ig) IgA, IgM, IgG

Até aos 4-6 meses de vida reflectem a passagem transplacentar de Igs. Utilidade após os 4 meses de idade no diagnóstico dos défices combinados ou humorais puros.
Considerar hipogamaglobulinémia fisiológica de infância entre os 3-7 meses. Valorizar défice de IgA apenas em crianças > 4 anos.

IgE total Valor elevado na Síndroma de Hiper-IgE
Subclasses de IgG Sem indicação em crianças < 24 meses
Anticorpos Específicos ·  Iso-hemaglutininas: IgM anti-A ou B (excepto se grupo de sangue AB) (presentes no recém-nascido)
·  Títulos de anticorpos contra antigénios proteicos (anti-toxóide tetânico ou diftérico): dependem da interacção entre células T e B; avaliam produção de IgG1; resposta precoce nos primeiros meses de vida.
·  Títulos de anticorpos contra antigénios polissacarídeos (anti-PCP): avalia produção de IgG2; resposta ausente até aos 2 anos de idade [se níveis diminuídos, vacinar e repetir níveis 4 semanas após].
Radiografia do Tórax Avaliar presença de tecido tímico nas crianças pequenas; e bronquiectasias ou pneumatocelos.

QUADRO 4 – Exames complementares de diagnóstico de segunda linha na suspeita de imunodeficiências primárias

  Exames de diagnóstico
Defeitos celulares ·  Análise TRECs
·  Imunofenotipagem células T: CD3+ (Linfócitos T), CD3+/CD4+ (LT helper), CD3+/CD8+ (LT citotóxicos), CD3+/HLA-DR+ (LT activados), CD3+/ CD4-CD8- (Células T “duplamente negativas”), CD19+ ou CD20+ (Linfócitos B), CD3-/CD16+ e/ou CD56+ (Células NK)
·  Resposta proliferativa linfocitária após estimulação com mitogénios (inespecíficos: PMA (phorbol-1-myristate-13-acetato), ionomicina ou fitohemaglutinina (PHA)); e com antigénios (estimulação específica, permite uma avaliação mais selectiva) ou células alogénicas
·  Testes hipersensibilidade tardia
·  Repertório Vbeta
Defeitos humorais

·  Análise KRACS
·  Imunofenotipagem células B

Alterações fagócitos

·  Estudo da quimiotaxia dos neutrófilos (expressão de CD11/CD18)
·  Estudo da fagocitose após estimulação com E. coli opsonizada
·  Estudo da capacidade oxidativa dos neutrófilos:

o Teste da redução com “nitroblue” (NBT)
o Teste da dihidrorodamina após estimulação com PMA, Escherichia coli ou mieoloperoxidase (citometria de fluxo)

Estudo complemento · Doseamento de CH50: rastreio de um defeito na via clássica do complemento. Se alterado confirmar pela quantificação dos diversos componentes desta via
· Doseamento de AH50: rastreio de um defeito na via alternativa. Se alterado confirmar pela quantificação dos diversos componentes desta via
Alteração imunidade inata ·  Ensaios citotoxicidade NK
·  Ensaios função TLR
Imunodesregulação

·  Painel screen ALPS: vitamina B12, Fas ligando, Il 10
·  Ensaios apoptose
·  Auto-anticorpos

Autoinflamatórios

·  Níveis IgD

Tratamento

Os pontos comuns na abordagem terapêutica das IDP são a prevenção das infecções e o seu tratamento agressivo e atempado. A vacinação com vacinas vivas deve ser protelada até esclarecimento do tipo de IDP em causa, dado que não está indicada nas patologias com deficiências de linfócitos B ou T graves. No caso de necessidade de transfusão sanguínea, apenas devem ser usados produtos irradiados e negativos para o citomegalovírus.

A terapêutica específica varia de acordo com o tipo de IDP, como se pode observar no Quadro 5.

QUADRO 5 – IDP: Terapêuticas para os vários grupos Conclusão

Grupo de IDP Terapêuticas
 Imunodeficiências Combinadas – Imunossupressores
– Profilaxia antibiótica
– Imunoglobulina de substituição
– Substituição enzimática
– Terapia génica
– Transplante de medula óssea

 

Defeitos de Anticorpos

– Imunossupressores
– Profilaxia antibiótica
– Imunoglobulina substituição

 

 

Defeitos de Fagócitos

– G – CSF (factor de crescimento)
– Profilaxia antibiótica
– Interferão gama
– Terapia génica
– Transplante medula óssea
Defeitos de Complemento – Profilaxia antibiótica
– Vacinação

 

Defeitos de Imunidade Inata

– Profilaxia antibiótica
– Vacinação
– Imunoglobulina de substituição
– Transplante de medula óssea

 

Doenças Autoinflamatórias

– Corticoterapia; outros imunossupressores
– Agentes biológicos
– Terapêutica de suporte

 

Alterações da Imunodesregulação

– Profilaxia antibiótica
– Vacinação
– Corticoterapia; outros imunossupressores
– Agentes biológicos

 

 

O diagnóstico das IDP constitui um desafio clínico, pois tal patologia, rara, exige um elevado índice de suspeição, a mesma patologia pode ter manifestações diferentes, e o mesmo defeito genético pode levar a diferentes apresentações de acordo com o tipo de mutação.

Além disso, os exames complementares não são específicos e, muitas vezes, resultados normais não permitem excluir IDP.

Em suma, é muito importante o reconhecimento atempado e a prescrição de terapêutica adequada de forma minorar a comorbilidade e a mortalidade associadas.

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ALERGIA E INTOLERÂNCIA ALIMENTARES

Definição e importância do problema

Ao longo dos últimos anos, coincidindo com o aumento de prevalência das doenças alérgicas (segundo alguns, relacionável com a menor exposição a determinados microrganismos na primeira infância – “hipótese higiénica”), a alergia alimentar tem vindo a ser considerada um importante problema de saúde pública. As reacções adversas relacionadas com a ingestão de alimentos podem ser denominadas duma forma abrangente hipersensibilidade alimentar e divididas em duas categorias principais (Quadro 1):

  1. Alergia alimentar – compreende qualquer resposta imunológica anormal a proteínas alimentares – mais frequentemente mediada pela produção de anticorpos IgE (alergia alimentar mediada por IgE) ou tendo subjacentes mecanismos mediados por células e outros componentes do sistema imunitário (alergiaalimentar não mediada por IgE); existem também situações que podem ser mediadas por IgE em associação com outros mecanismos imunológicos (alergia alimentar mista).
  2. Hipersensibilidade alimentar não alérgica/não imune (mais prevalente e também referida como intolerância alimentar) – abrange a maioria das reacções adversas a alimentos e inclui manifestações clínicas que, decorrendo da ingestão de qualquer constituinte (não proteico) de um alimento ou aditivo alimentar, resultam de fenómenos não-imunológicos, tais como reacções metabólicas, defeitos estruturais, reacções farmacológicas ou reacções idiossincrásicas.

O conceito de hipersensibilidade alimentar designa, assim, de forma lata um vasto leque de reacções adversas a alimentos que podem ser mediadas por uma resposta do sistema imunitário (alergia alimentar) ou por mecanismos não imunológicos (intolerância alimentar). No entanto, a distinção entre alergia alimentar não mediada por IgE e intolerância alimentar nem sempre é clara e não é consensual; tal explica-se pelo facto de ainda: 1- conhecemos pouco os mecanismos subjacentes e; 2- dispormos de escassos os exames laboratoriais para suporte diagnóstico da alergia alimentar não mediada por IgE na prática clínica.

Aspectos epidemiológicos

A epidemiologia da alergia alimentar não é conhecida de forma precisa, devido à escassez de estudos bem desenhados e aos diferentes critérios de diagnóstico e metodologias utilizados nos poucos disponíveis, dificultando a sua comparação.

Em inquéritos realizados em amostras populacionais é habitualmente possível identificar uma frequência elevada de indivíduos convictos de que são “alérgicos” a algum tipo de alimento (até 17% na Europa); contudo, quando se procede a avaliação diagnóstica correcta tal não se confirma na maioria dos casos. Estima-se assim que a prevalência de alergia alimentar na população em geral seja de 0,8% a 5% (em estudos europeus), tendendo a ser mais elevada em populações pediátricas do que na idade adulta.

Os alergénios alimentares mais importantes variam entre as diferentes populações, em função dos hábitos alimentares predominantes e do grupo etário estudado.

Na população pediátrica portuguesa, o leite (comparticipação da lactoglobulina) e o ovo (comparticipação da ovomucina) parecem ser os mais frequentes, seguidos do peixe e cereais. A alergia à soja e ao amendoim, muito prevalente nos países anglo-saxónicos, é bastante mais rara entre nós. A partir da idade escolar começam a ganhar expressão outros grupos alimentares, como os crustáceos e moluscos, os frutos frescos e o amendoim e frutos de casca rija.

Nalguns casos, a alergia alimentar resulta da sensibilização a proteínas que se distribuem de forma ubiquitária em vários alimentos e também em aeroalergénios de origem animal ou vegetal. Quando tal sucede podemos estar perante as chamadas síndromas de reactividade cruzada, em que o doente se sensibiliza primariamente a um determinado alergénio e, mais tarde, começa a reagir a outros que contêm proteínas estruturalmente semelhantes.

Como exemplo, cita-se a chamada síndroma ácaros-marisco em que o doente alérgico a ácaros do pó doméstico desenvolve alergia a crustáceos e moluscos através da sensibilização à proteína muscular tropomiosina. Estão também descritas diferentes síndromas pólen-frutos-vegetais, em que uma sensibilização primária a proteínas de determinados pólenes leva ao aparecimento de alergia a alimentos de origem vegetal contendo proteínas semelhantes, com manifestações clínicas de maior ou menor gravidade consoante o tipo de proteína em causa. Estas formas de alergia parecem apresentar uma incidência crescente.

Manifestações clínicas

As manifestações clínicas de alergia alimentar podem ser muito variadas, com envolvimento de múltiplos órgãos e sistemas, predominando o compromisso muco-cutâneo, gastrintestinal e respiratório (Quadro 1). A anafilaxia – por definição, uma reacção de tipo imediato envolvendo mais do que um órgão ou sistema – é a manifestação com maior potencial de gravidade, visto que pode condicionar risco de vida quando não é rapidamente identificada e tratada.

As alergias alimentares de expressão gastrintestinal, manifestando-se por vómitos persistentes, diarreia ou diminuição da ingestão / suprimento calórico ou proteico, podem repercutir-se na progressão ponderal.

Diagnósticos incorrectos e dietas de evicção inadequadas, em especial se estiverem em causa alimentos básicos, podem ter consequências igualmente nefastas. Por isso torna-se importante o correcto e precoce diagnóstico e a instituição de dieta adequada a fim de prevenir carências nutricionais e hipocrescimento.

A ampla diversidade de apresentações clínicas, levanta várias dificuldades diagnósticas, especialmente quando estão em causa situações crónicas e multifactoriais, como o eczema atópico ou a esofagite eosinofílica, alergias não mediadas por IgE, ou quando se confia excessivamente nos resultados dos meios auxiliares de diagnóstico in vitro in vivo, eles próprios com valor preditivo negativo e positivo variáveis.

Diagnóstico

Uma abordagem diagnóstica correcta deve sempre iniciar-se pela colheita cuidadosa da história clínica, incluindo como passos iniciais, a anamnese e o exame objectivo. A anamnese permite caracterizar o padrão de sintomas e identificar os alimentos suspeitos, com base numa correlação consistente entre a sua ingestão e o aparecimento das manifestações clínicas. A execução de diários alimentares pode ser um auxiliar precioso nos casos de sintomatologia crónica, em que a relação causal não seja óbvia ou quando a informação fornecida não é precisa. O exame objectivo poderá permitir a exclusão de outras causas das queixas, identificar sinais de doença alérgica concomitante e avaliar o estado nutricional e desenvolvimento estaturo-ponderal da criança;

A escolha dos exames auxiliares de diagnóstico deve basear-se na apresentação clínica e no presumível quadro imunológico subjacente. Se se suspeitar de um processo imunitário mediado por IgE, os testes cutâneos por picada e os doseamentos de IgE específica sérica constituem importantes auxiliares. Apresentam em geral um excelente valor preditivo negativo (superior a 95%), mas um baixo valor preditivo positivo (inferior a 50%).

Actualmente é possível, para alguns alimentos, testar não apenas os extractos proteicos completos mas também proteínas individuais (purificadas ou obtidas por tecnologia recombinante), com potenciais ganhos em termos de valor preditivo e também melhor esclarecimento de eventuais quadros de reactividade cruzada. É o caso, por exemplo, da caseína/lactoglobulina (leite), da ovomucóide (ovo) e de uma conglutinina do amendoim designada Ara h 2: neste contexto, a presença de IgE indica uma maior probabilidade de alergia clinicamente relevante. A detecção de IgE para outras proteínas como, por exemplo, a Pru p 3 (proteína de transporte de lípidos do pêssego) ou a Pen a 1 (tropomiosina do camarão) indica-nos estarmos provavelmente perante uma síndroma de reactividade cruzada, com possibilidade de reacção a vários alimentos.

A indicação para o doseamento de IgE para extractos proteicos ou componentes moleculares deve sempre ser criteriosa e rigorosamente orientada pela história clínica. Exames baseados no doseamento de outras classes de imunoglobulinas, como a IgG, não estão validados para o diagnóstico de alergia alimentar.

Em estudos recentes demonstrou-se associação de hiperamilasémia e neutrofilia a alergia alimentar imediata.

Na alergia alimentar não imediata de expressão gastrintestinal a endoscopia digestiva com realização de biópsia da mucosa pode ser de grande utilidade. Actualmente não dispomos de outros exames complementares de diagnóstico adequados à prática clínica.

A detecção de IgE não permite distinguir, de forma totalmente segura, entre a presença de alergia clinicamente relevante e a sensibilização assintomática; por outro lado, a sua ausência não permite excluir os quadros de alergia não mediada por IgE. Sendo assim, a confirmação do diagnóstico depende sempre da avaliação da resposta à dieta de eliminação do alimento suspeito, em geral durante 2 a 4 semanas, seguida da realização de prova de provocação oral. As provas de provocação são também essenciais no seguimento destes doentes ao longo do tempo, especialmente nos casos em que se preveja a resolução da alergia (ex. alergia ao leite e ovo). Estas devem sempre ser efectuadas em meio hospitalar por clínicos experientes na sua realização e na abordagem terapêutica de emergência na eventualidade de surgirem reacções.

Diagnóstico diferencial

No âmbito do tópico deste capítulo e tipificando o diagnóstico diferencial de situações cursando com manifestações gastrintestinais, cabe uma referência especial à intolerância à lactose e à alergia às proteínas do leite de vaca.

A lactose é um dissacárido que é desdobrado em glucose e galactose por acção da lactase no intestino delgado (células da bordadura em escova). A intolerância à lactose é mais frequentemente resultante da deficiência secundária da lactase por lesão da mucosa intestinal (formas em geral transitórias, regredindo uma vez resolvida ou compensada a situação gastrintestinal de base – por ex. gastrenterite vírica). Contudo, tal deficiência pode ser congénita por mutações no gene LCT.

A não absorção da lactose resulta em fermentação da mesma com consequente flatulência, diarreia, fezes ácidas e escoriação cutânea perianal. A microbiota intestinal poderá compensar em grau variável a metabolização da lactose.

má absorção da lactose não deve ser confundida clinicamente com alergia às proteínas do leite de vaca. A restrição de lactose na dieta é geralmente suficiente para controlar os sintomas gastrintestinais (sabendo-se que produtos lácteos como queijo e iogurte têm menor teor em lactose).

alergia às proteínas do leite de vaca pode ser mediada ou não por IgE. As proteínas (alergénios) mais frequentemente implicadas são a beta-lactoglobulina, a alfa-lactoalbumina e a caseína (para confirmação do diagnóstico consultar capítulo “Aspectos do diagnóstico da doença alérgica”). O diagnóstico de intolerância à lactose pode ser confirmado por regressão dos sintomas com dieta sem lactose, pelo teste de hidrogénio expirado após ingestão de lactose, ou, em situações especiais, por biópsia.

Tratamento

O tratamento da alergia alimentar assenta fundamentalmente na evicção dos alimentos identificados e responsabilizados pelo quadro clínico. A terapêutica farmacológica não é habitualmente utilizada, à excepção do tratamento de emergência da reacção aguda. A indução de tolerância oral a alimentos tem vindo a ser desenvolvida por vários grupos mas é considerada uma abordagem experimental e não é ainda recomendada como terapêutica de rotina.

Relativamente às medidas de evicção alimentar, deve ser fornecida aos pais, aos prestadores de cuidados e às próprias crianças informação cuidadosa sobre os alimentos a evitar e potenciais situações de risco. Deve ser feito ensino relativamente à necessidade de leitura atenta dos rótulos e do cuidado na manipulação dos alimentos, de modo a evitar a contaminação inadvertida daqueles que o doente irá consumir. O regime alimentar deve ser adaptado individualmente, em função das características e grau de reactividade de cada criança. Em muitos casos, é útil o aconselhamento por dietista, em especial quando estão em causa alimentos básicos ou são necessárias múltiplas evicções.

No que diz respeito ao tratamento de emergência, é essencial elaborar planos de actuação escritos, incluindo informação que permita ao doente e/ou aos pais identificar os sintomas de alarme e definindo critérios para utilização da terapêutica. Reacções ligeiras poderão ser tratadas com anti-histamínico e corticóide sistémico e, no caso de se tratar de um doente asmático deve ser prevista a administração de broncodilatadores por via inalatória. Caso se considere que o doente apresenta alto risco anafilático, deve ser prescrita adrenalina para auto-administração e as pessoas que contactam mais de perto com a criança devem ser informadas e treinadas na sua utilização. Após a terapêutica inicial da reacção, o doente deve ser observado em meio hospitalar, onde deverá permanecer em vigilância durante algumas horas.

A história natural dos sintomas relacionados com alergia alimentar é muito variável, mas na criança a sensibilidade tende com frequência a perder-se com o tempo. Consequentemente, é necessário realizar de provas de provocação periódicas ao longo do seguimento do doente. O cronograma das provas deve ajustado individualmente, tendo em conta múltiplos factores, como a idade do doente, o tipo de manifestações clínicas, o alimento incriminado e a evolução dos níveis de IgE específica sérica. Salienta-se que não é necessário aguardar pela negativação dos testes cutâneos ou doseamentos de IgE, visto que estes podem permanecer positivos mesmo após a aquisição da tolerância. As provas de provocação alimentar devem sempre ser realizados em ambiente hospitalar e com supervisão de especialistas experientes neste tipo de procedimentos.

Prevenção

Ao longo da última década e em resultado de uma análise mais crítica dos resultados de investigação com provas científicas, as recomendações no que diz respeito à prevenção primária da alergia alimentar alteraram-se significativamente.

No que diz respeito à gravidez, não é recomendada actualmente qualquer dieta de evicção, sendo as grávidas aconselhadas apenas a seguir uma dieta diversificada e saudável.

Do mesmo modo, não é recomendada dieta materna com intuito preventivo durante o período de aleitamento. A mãe lactante tem indicação para fazer dieta de evicção apenas nos raros casos de bebés com alergia alimentar em que se prove reactividade clinicamente significativa a proteínas incorporadas no leite materno.

O aleitamento materno exclusivo durante os primeiros 4 a 6 meses de vida parece ter algum efeito preventivo (embora não existam provas científicas inequívocas). Por isso, e considerando dos múltiplos benefícios, o mesmo recomendado para todos os bebés. Não parece haver, no entanto, qualquer vantagem no prolongamento do aleitamento materno exclusivo para além da idade dos 6 meses, existindo inclusivamente estudos admitindo a possibilidade de o atraso na introdução dos alimentos sólido aumentar o risco de alergia alimentar.

Nos bebés de risco atópico (presença de eczema atópico ou história familiar de doença alérgica nos progenitores ou irmãos), quando o aleitamento materno não é possível ou suficiente, é aconselhado o uso de fórmulas lácteas parcial ou extensamente hidrolisadas, podendo haver vantagem nas segundas. No entanto há alguma inconsistência de resultados entre diferentes estudos.

O início da diversificação alimentar não deve ser atrasado para além dos 6 meses de idade e, ao contrário do que se preconizava anteriormente, não há indicação, à luz dos conhecimentos actuais, para atrasar a introdução de qualquer alimento, nem mesmo daqueles considerados mais alergénicos.

Em suma, os conhecimentos sobre a alergia alimentar estão em constante evolução e têm levado a modificações significativas quanto a certos aspectos das abordagens diagnóstica e terapêutica.

QUADRO 1 – Hipersensibilidade alimentar: classificação e manifestações clínicas

Alergia alimentar
(mediada pelo sistema imunitário/por linfócitos TH-2))
Intolerância alimentar
(mecanismos não imunitários)
Mediada por IgE
(início em minutos até 2h após ingestão)
Mista
(intervalo variável entre ingestão e sintomas)
Não mediada por IgE
(início em horas a dias após ingestão)

*A doença celíaca é uma situação particular dado que se trata de uma doença de carácter autoimune desencadeada por uma reacção de hipersensibilidade às proteínas do glúten

– Urticária, angioedema

– Prurido orofaríngeo (síndroma de alergia oral)

– Sintomas gastrintestinais agudos

– Sintomas respiratórios agudos

– Anafilaxia (≥ 2 órgãos ou sistemas)

-Neutrofilia e hiperamilasémia

– Eczema atópico

– Esofagite eosinofílica

– Gastrenteropatias eosinofílicas

– Enterocolite por proteínas alimentares (vómitos incoercíveis, diarreia, desidratação, letargia, hipotensão)

– Enteropatia por proteínas alimentares (sintomas digestivos crónicos, má-absorção, enteropatia exsudativa, má progressão ponderal)

– Proctocolite por proteínas alimentares (dejecções com sangue e muco)

– Síndroma de Heiner (hemossiderose pulmonar induzida por proteínas lácteas)

– Doença celíaca*

– Intolerância a lactose

– Má absorção de oligo ou dissacáridos (lactose, frutose…)

– Doenças hereditárias do metabolismo (ex. intolerância a frutose)

– Reacções idiossincrásicas (ex. aminas vasoactivas, cafeína, glutamato de sódio…)

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ALERGIA MEDICAMENTOSA

Definições e importância do problema

As reacções de hipersensibilidade a medicamentos (RHM) consistem no aparecimento de manifestações semelhantes às das reacções alérgicas, na sequência da toma dum medicamento, na dose tolerada pela maioria das pessoas. De acordo com a classificação da Organização Mundial de Saúde (OMS) correspondem às reacções adversas a fármacos do grupo B, ou bizarras, ou seja, as que ocorrem em indivíduos sensíveis e não dependem de efeitos farmacológicos ou de sobredosagem dos mesmos. No entanto, os aspectos clássicos de “não dependência da dose” e “imprevisibilidade” são actualmente questionados.

De facto, pode existir alguma dependência da dose com alguns medicamentos (ex. anti-inflamatórios não esteróides (AINE) assim como previsibilidade, na presença de algumas doenças (ex. infecção por vírus de Epstein-Barr (VEB) ou infecção por vírus de imunodeficiência humana (VIH), ou ainda após reacção prévia similar aos fármacos em causa ou da mesma classe.

O termo alergia medicamentosa deve ser reservado para as RHM em que foi possível demonstrar o envolvimento dum mecanismo imunológico específico, dirigido para o medicamento suspeito, mediado por anticorpos (maioritariamente, do tipo IgE) ou por células T. Na prática clínica é difícil distinguir este tipo de reacções das não alérgicas, pelo que se deve optar por falar em RHM quando se suspeita de alergia medicamentosa.

As reacções de hipersensibilidade correspondem a menos de 15% das reacções adversas a medicamentos (RAM). Existem poucos estudos que tenham avaliado a prevalência da alergia medicamentosa na idade pediátrica em Portugal. De acordo com os resultados de Martins P e cols. a prevalência de alergia a medicamentos reportada pelos pais de 1169 crianças de infantários de Lisboa e do Porto é de 4,1% e os fármacos mais referidos foram os antibióticos (em 27 reacções) e os AINE (em seis reacções). No entanto, os valores reportados pelos pais sobrestimam a verdadeira frequência da alergia medicamentosa nas crianças, sendo necessário que estas situações sejam devidamente estudadas, na perspectiva de evicções desnecessárias que possam condicionar opções terapêuticas em futuras situações de doença.

A revisão sistemática de Smyth e col. mostrou que nas crianças a incidência das RAM no internamento é maior que no ambulatório, e que 2,9% das RAM condicionaram hospitalização. Estes resultados confirmam que as reacções adversas a fármacos na criança são um problema importante de saúde pública.

Classificação das reacções

Existem várias classificações clínicas das RHM, sendo usual optar por classificar as reacções em imediatas e não imediatas ou tardias, de acordo com a relação temporal entre o início da exposição ao medicamento e o aparecimento da reacção. As reacções imediatas surgem no espaço de 1 a 6 horas após a última administração do fármaco e, em geral, envolvem um mecanismo mediado pela imunoglobulina E (IgE).

Apresentam-se na maioria das vezes com sintomas isolados, como urticária, angioedema, conjuntivite, rinite, broncospasmo, manifestações gastrintestinais (náusea, vómitos, diarreia, dor abdominal), ou anafilaxia, com ou sem colapso cardiovascular (choque anafiláctico).

Relativamente às reacções não imediatas, estas podem surgir a qualquer momento, após uma hora da administração inicial do fármaco. Estão frequentemente associadas a mecanismo alérgico, dependente da célula T. Os exantemas máculo-papulares e a urticária de aparecimento tardio são as manifestações clínicas mais comuns das reacções não imediatas. Outros quadros incluem o eritema fixo, vasculites, doenças bolhosas como a necrólise epidérmica tóxica (NET), a síndroma de Stevens-Johnson (SSJ), e erupções fixas bolhosas generalizadas, a síndroma DRESS (drug rash, eosinofilia e sintomas sistémicos), a pustulose exantemática aguda generalizada (AGEP) e exantemas simétricos envolvendo as regiões intertriginosas e flexurais (SDRIFE). Podem envolver órgãos internos, de modo isolado ou com atingimento da pele, incluindo quadros de hepatite, insuficiência renal, pneumonite, anemia, neutropénia e trombocitopénia.

Em termos de mecanismos fisiopatológicos, os medicamentos são capazes de induzir todos os tipos de reacção descritos por Gell e Coombs, sendo os b-lactâmicos o exemplo paradigmático. Os anticonvulsivantes e o alopurinol tendem a causar reacções predominantemente mediadas por células T enquanto os agentes neuromusculares provocam reacções mediadas pela IgE, em geral.

Factores de risco

O risco de alergia medicamentosa resulta da interacção complexa de factores que não estão ainda completamente clarificados, em relação com o medicamento, o indivíduo e a doença, e co-morbilidades associadas. Relativamente ao medicamento, a imunogenicidade ou seja, a capacidade de o fármaco actuar como hapteno, pro-hapteno ou de se ligar de modo covalente aos receptores imunes (conceito Pi), tem influência directa no risco de desenvolvimento duma reacção de hipersensibilidade.

A administração intermitente e repetitiva do medicamento versus administração prolongada, a utilização da via de administração parentérica comparativamente à via oral, têm sido reportadas como factores de risco, apesar da fraca robustez das provas.

Em relação ao indivíduo destaca-se a história prévia de reacções ao medicamento ou a medicamentos com reactividade cruzada, doenças concomitantes que alterem a resposta imunológica aos medicamentos, como algumas infeções víricas (ex. infecção por VEB e amoxicilina, VIH e cotrimoxazol) e alguns polimorfismos genéticos específicos. O terreno atópico não parece aumentar o risco de surgimento de RHM, relativamente à maioria de medicamentos; isto, apesar de ser apontado o mesmo como factor de risco de gravidade das reacções de anafilaxia à penicilina.

Manifestações clínicas

Relativamente à clínica, existe grande variedade em termos do tipo de apresentação, envolvendo um ou vários órgãos e sistemas, e da gravidade. As manifestações mais frequentes são as cutâneas isoladas. No entanto, quadros de anafilaxia, potencialmente fatais, assim como manifestações tipo doença do soro, síndromas de hipersensibilidade, reacções autoimunes induzidas por fármaco, e febre isolada, fazem parte do espectro clínico.

Diagnóstico

O aparecimento de um sinal ou sintoma não previsível, relacionado no tempo com a administração de um medicamento, deve levar à suspeição do diagnóstico de RHM. A abordagem vai depender do momento da observação da criança, ou seja, se esta ocorre na fase sintomática ou após a recuperação da mesma.

Na fase sintomática é importante a avaliação clínica da gravidade da reacção, incluindo um exame físico e exames laboratoriais variáveis, dependendo do tipo de reacção. Sinais de compromisso respiratório e cardiovascular devem ser pesquisados nas reacções imediatas, enquanto nas reacções não imediatas devem ser monitorizados sinais de alerta gerais e específicos de órgão (Quadro 1).

QUADRO 1 – Sinais de gravidade das reacções de hipersensbilidade a medicamentos

Sinais de gravidade das RHM

a – sem utilidade clínica no tratamento, na fase aguda
b– na suspeita de RHM tardia grave, deve pedir-se hemograma completo, função hepática e renal
Adaptado de Bircher AJ. Symptoms and danger signs in acute drug hypersensitivity. Toxicology 2005;209(2):204

  Sinais visíveis de gravidade Parâmetros invisíveis de gravidade
Reacções imediatas
    • início abrupto de sintomas multissistémicos (respiratórios e mucocutâneos)
    • diminuição da tensão arterial
    • dispneia
    • disfonia
    • sialorreia
    • níveis elevados de triptase séricaa
Reacções não imediatas

Gerais

    • linfadenopatia
    • febre > 38,5ºC

 Específicos de órgão

    • exantema doloroso
    • envolvimento cutâneo > 50%
    • lesões em alvo atípicas
    • erosões da mucosa
    • lesões bolhosas
    • edema centro-facial
    • exantema papular purpúrico com infiltração, necrose
  • alterações nas contagens sanguíneasb
      • citopénias
      • eosinofilia
  • alterações da função hepáticab
  • alterações da função renalb

Independentemente do tipo de reacção, a presença de sinais de gravidade implica a suspensão imediata do(s) medicamento(s) suspeito(s) e a instituição de medidas terapêuticas, adequadas (ver tratamento). Na ausência destes sinais, se o medicamento for considerado imprescindível pode equacionar-se a continuidade da sua administração e o tratamento sintomático da reacção.

  1. O primeiro passo é a história clínica detalhada, de modo a caracterizar o tipo de reacção.
    As questões devem incidir sobre:
    • os sintomas, nomeadamente se estes são compatíveis com RHM
    • cronologia da reacção, ou seja, o início da reacção (no primeiro contacto com o medicamento ou ao fim de alguns dias de exposição), intervalo entre a última dose e o início dos sintomas e o efeito da suspensão do fármaco / medicação
    • lista completa da medicação concomitante no momento da reacção, incluindo o início e término da administração de cada um dos medicamentos
    • exposição prévia ou posterior ao medicamento ou a outros da mesma classe
    • motivo da prescrição do medicamento
    • factores predisponentes, incluindo a eventual existência de alergias, relacionadas ou não com medicamentos; comorbilidades como a urticária crónica ou rinossinusite crónica, as quais podem ser agravadas pela toma de AINE, por exemplo.

    A informação recolhida deve ser enquadrada à luz do conhecimento dos padrões de RHM identificados para os vários medicamentos, pressuposto o acesso a bases de dados médicos, como a Medline ou plataformas electrónicas das Agências de Segurança do Medicamento, como o Infarmed.
    O recurso à escala de Naranjo, um algoritmo para avaliar a relação de causalidade, na maioria das vezes não permite confirmar o diagnóstico, sobretudo na idade pediátrica. Assim, perante uma história suspeita de RHM é necessário avançar com a investigação alergológica.

  2. investigação alergológica inclui a realização de testes cutâneos e provas de provocação para confirmação do diagnóstico e clarificação do mecanismo envolvido na reacção. Os exames laboratoriais têm um papel limitado no diagnóstico e são realizados com fins de investigação.
    Os procedimentos devem ser efectuados na consulta de Imunoalergologia, 4 a 6 semanas após resolução completa da reacção, para evitar resultados falsos negativos.
    Os testes cutâneos intradérmicos para detecção de IgE específica têm sido os únicos que têm revelado um valor preditivo negativo elevado, sobretudo na avaliação da suspeita de reacções imediatas aos antibióticos b-lactâmicos e relaxantes musculares. A sua principal limitação deve-se ao facto de os determinantes antigénicos responsáveis pela alergia na maioria dos fármacos serem desconhecidos.
    Nas reacções não imediatas, podem realizar-se testes epicutâneos – patch tests e/ou a leitura tardia dos testes intradérmicos. No entanto, perante quadros cutâneos mais graves, de AGEP, DRESS, NET e SJS, os testes epicutâneos devem ser os exames de primeira linha.
    Relativamente aos exames laboratoriais, na suspeita de reacções IgE mediadas é ainda recomendável o doseamento das IgE específicas séricas, sobretudo quando ocorrem manifestações clínicas graves, de choque anafiláctico. Contudo, o doseamento de IgE específicas está disponível apenas para um número limitado de medicamentos (ex. penicilinas G e V, amoxicilina,etc.), os resultados têm menor sensibilidade quando comparados com os dos testes cutâneos intradérmicos, e a positividade do teste não implica necessariamente reactividade clínica.
    Nos casos de reacções agudas, as medições séricas de triptase confirmam o envolvimento dos mastócitos na reacção e podem apoiar a posteriori o diagnóstico de anafilaxia explicável por alergia medicamentosa.
    Os testes de activação dos basófilos (BAT) com utilização da citometria de fluxo paradetecção de marcadores de activação celular (ex: CD63), parecem ser promissores no diagnóstico da alergia medicamentosa, assim como os testes de transformação linfocitária (TTL), os quais deverão ser realizados por laboratórios com experiência no estudo das RHM.
    Na maioria das situações, o diagnóstico de hipersensibilidade pressupõe a realização de uma prova de provocação, em meio hospitalar, consistindo na administração controlada de doses progressivas de fármaco, com o intuito de confirmar ou excluir o diagnóstico e, em casos particulares, para obtenção de alternativas terapêuticas consideradas necessárias.

Tratamento

Quando há suspeita de alergia medicamentosa é importante proceder à suspensão da administração do fármaco em causa. Nas crianças com medicações múltiplas devem parar-se todas as dispensáveis e substituir as necessárias por fármacos sem reactividade cruzada.

O tratamento das reacções é sintomático. Nas reacções ligeiras, como os exantemas pouco extensos, a utilização de anti-histamínicos é em geral suficiente. Apresentações mais graves ou agravamento clínico podem requerer corticoterapia sistémica para controle sintomático. Nos casos de anafilaxia com compromisso respiratório e/ou cardiovascular é fundamental administrar adrenalina por via intramuscular com prontidão.

A confirmação do diagnóstico de hipersensibilidade medicamentosa implica a evicção do medicamento envolvido e dos que apresentem reactividade cruzada. Perante situações raras, de inexistência de alternativas terapêuticas sem reactividade cruzada e em que a utilização do medicamento é imprescindível, é possível recorrer à indução de tolerância, ou dessensibilização. Este procedimento envolve a administração controlada de doses progressivas do medicamento até se alcançar a dose terapêutica. A tolerância clínica é transitória exigindo a continuidade da administração diária do medicamento, pois desaparece rapidamente após a suspensão do mesmo.

Existem vários protocolos de indução de tolerância para antibióticos b-lactâmicos, trimetoprim-sulfametoxazol, insulina, ácido acetilsalicílico, entre outros, publicados na literatura. No entanto, a dessensibilização aos medicamentos deve ser realizada por especialistas de Imunoalergologia familiarizados com a técnica, assim como com o tratamento das eventuais reacções de anafilaxia, em ambiente de internamento hospitalar, com acesso fácil e rápido a equipamento de reanimação e a Unidade de Cuidados Intensivos.

Prevenção

A prevenção da alergia medicamentosa pode ser levada a cabo seguindo determinadas recomendações:

  • prescrição apenas dos fármacos essenciais
  • evicção dos fármacos com reacções prévias suspeitas, assim como os que tenham reactividade cruzada
  • introdução controlada de fármaco / agente de diagnóstico com indicação imperiosa e com história de antecedentes de reacção pouco provável (ex: 1/100 da dose, seguido de aumentos de dose de 10x, a intervalos de 30 a 60 minutos até à dose terapêutica)
  • informação do paciente/família sobre a reacção medicamentosa, procedendo ao registo médico do incidente
  • registo e participação das reacções adversas graves ou inesperadas, ao Infarmed, especialmente nos casos de fármacos recentes

Situações particulares

Neste capítulo serão abordados alguns dos pontos mais importantes relativos a três dos principais grupos de produtos farmacológicos implicados nas reacções de hipersensibilidade em idade pediátrica: antibióticos b-lactâmicos, anti-inflamatórios não esteróides e vacinas.

Antibióticos b-lactâmicos

O aparecimento de exantema é frequente nas crianças expostas à penicilina e antibióticos b-lactâmicos. Perante uma história sugestiva de reacção alérgica aos b-lactâmicos devemos realizar testes cutâneos por picada e intradérmicos (TC), incluindo o determinante major, benzilpenicilloyl-polilisina, os determinantes minor e as formas solúveis dos fármacos responsáveis.

Estima-se que 7 a 20% dos indivíduos com suspeita de história de alergia à penicilina tenham testes cutâneos positivos. O valor preditivo negativo destes testes é excelente (>95%), sendo que apenas 1 a 3% dos indivíduos com história positiva e TC negativos desenvolvem reacções ligeiras de urticária e/ou prurido. As reacções sistémicas aos testes cutâneos são raras (<1%) embora existam notificações de óbitos. As determinações da IgE específica têm uma sensibilidade muito baixa, apesar de aumentarem a sensibilidade diagnóstica da investigação alergológica.

Em situações não IgE-mediadas, os testes cutâneos têm uma reduzida sensibilidade, sendo excepção os quadros clínicos graves, como o DRESS, em que os exames de primeira linha na investigação diagnóstica são os patchtest.

As provas de provocação devem ser realizadas para fins de diagnóstico, nas reacções IgE mediadas em que os TC foram negativos e nas reacções não IgE mediadas, em que não estejam contra-indicadas, como são exemplo as reacções cutâneas graves.

Anti-inflamatórios não esteróides (AINE)

Estima-se que a prevalência de hipersensibilidade aos AINE reportada na idade pediátrica seja de 0,3%, podendo atingir os 5%, nas crianças asmáticas. As reacções classificam-se em imediatas, quando o início ocorre nos primeiros minutos a várias horas após a última dose, ou tardias, se surgem após 24 horas.

Admite-se que a hipersensibilidade aos AINE se deve a alterações do metabolismo do ácido araquidónico (ex. reacções respiratórias ou cutâneas), o que implica risco de reacção a outros AINE, em particular, aos que sejam inibidores potentes da cicloxigenase 1 (COX1)(20). No entanto, quadros de urticária, angioedema e/ou anafilaxia associados a um único AINE apontam para a possibilidade de formação de IgE específicas.

O diagnóstico de hipersensibilidade baseia-se na história clínica e realização de prova de provocação oral com o AINE suspeito. Os testes cutâneos e /ou o doseamento de IgE específicas devem ser reservados para situações de suspeita de reacções IgE mediadas, apesar de a validade dos testes ainda não estar bem estabelecida.

É consensual o recurso a provas de provocação para avaliar a tolerância a AINE alternativos. Deve optar-se pelos fármacos de menor risco ou seja, utilizar AINE inibidores fracos da COX1 (ex. paracetamol), inibidores preferenciais da COX(ex. meloxicam e nimesulida) e inibidores selectivos da COX2, (ex. etoricoxib, celecoxib). No entanto, estes dois últimos grupos de fármacos não estão aprovados para uso em crianças pequenas, devendo a sua introdução ser apenas ponderada nas crianças mais velhas (acima dos 8 anos). Em situações particulares, de coexistência de patologia reumatológica e hipersensibilidade aos AINE, podem testar-se os inibidores da COX2, como por exemplo o etoricoxib e o celecoxib.

Vacinas

A alergia às vacinas é um problema comum nas crianças devido ao elevado número de doses administradas, não obstante a incidência de reacções adversas ser rara, de 1 a 3 reacções por milhão de doses de vacina.

Perante a suspeita de alergia às vacinas deve proceder-se à investigação alergológica com a realização de testes cutâneos e/ou doseamento das IgE específicas séricas, para exclusão do diagnóstico de modo a evitar o impedimento desnecessário da vacinação.

Na composição das vacinas podem encontrar-se várias fontes alérgénicas proteicas, relacionadas com os antigénios microbianos (ex. toxóide do tétano e difteria), meios de cultura, conservantes ou estabilizantes.

A vacinação de crianças alérgicas ao ovo é motivo de preocupação, nomeadamente a administração da vacina contra o sarampo, parotidite e rubéola (VASPR), apesar de esta não conter proteínas do ovo, pois é cultivada em células, fibroblastos de embrião de galinha. Em termos de recomendação, salienta-se que a administração da VASPR deve ser a usual, sem a realização prévia de testes nem modificação da dose.

Relativamente às vacinas que têm ovo na sua composição, existe um risco potencial de anafilaxia, dependendo da quantidade de proteínas alergénicas que contenham. Nos últimos anos, o conteúdo de ovalbumina da vacina anti-influenza tem vindo a diminuir, sendo actualmente menor do que 1 mg, o que torna a administração segura mesmo nos casos de alergia grave ao ovo. Apesar disso, a administração da vacina anti-influenza deve ser feita nos Centros de saúde, nas crianças com alergia ligeira ao ovo e nos Centros hospitalares de Imunoalergologia, nos casos de alergia grave ao ovo.

Existem ainda vacinas como a da febre amarela, contendo proteínas do ovo em maior quantidade; por isso, as crianças com alergia ao ovo que tenham necessidade de tomar estas vacinas devem ser referenciadas para a consulta de Imunoalergologia, para serem submetidas a testes com a vacina. A positividade dos testes implica a administração controlada da vacina de acordo com protocolo, com doses crescentes.

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ALERGIA DE EXPRESSÃO CUTÂNEA

Importância do problema e sistematização

Durante a observação de uma criança com patologia cutânea, e provável etiologia alérgica devem de imediato ser avaliadas, não só as características das lesões e sua distribuição, mas também a presença de prurido. Considerando a etiologia alérgica é necessário avaliar a sua gravidade, tendo em conta, não só cada episódio, mas também a probabilidade da sua recorrência e o risco de eventuais reacções graves. Entre as situações consideradas do foro alérgico com expresão cutânea há que distinguir as que comportam ou não um risco subsequente de desenvolvimento de outras doenças alérgicas, nomeadamente respiratórias. No âmbito das situações de alergia de expressão cutânea, são descritas as entidades clínicas dermatite atópica, urticária e prurigo-estrófulo. Relativamente à primeira, neste capítulo foca-se essencialmente a fisiopatologia e o diagnóstico diferencial, abordando-se os restantes aspectos na parte referente à Dermatologia Pediátrica. No que respeita à anafilaxia, que tem a mesma base fisiopatológica que a urticária e angioedema, recorda-se que foi abordada sucintamente noutro capítulo, sendo dada ênfase ao respectivo tratamento neste.

1. Síndroma de eczema / dermatite atópica

Definição e fisiopatologia

A dermatite atópica (DA) é uma doença inflamatória crónica da pele, muito pruriginosa, que com frequência ocorre em associação com problemas respiratórios, para a patogenia dos quais contribuem mecanismos imunológicos de hipersensibilidade imediata e retardada; esta heterogeneidade de respostas tem levado à substituição do termo dermatite atópica por um mais abrangente: síndroma eczema / dermatite atópica (SEDA), podendo ainda dividir-se em não alérgica e alérgica; esta última, por sua vez, pode estar ou não associada à presença de IgE específica (atópica ou não atópica).

Na SEDA existe uma resposta inflamatória, traduzida por um infiltrado linfo-histiocitário circundando os vasos da derme superficial, mesmo ao nível da pele sem lesões.

Na fase aguda o infiltrado linfocitário acentua-se e associa-se a fenómenos de espongiose ao nível da epiderme, a qual, se muito intensa, condicionará a ruptura das ligações entre queratinocitos com a consequente formação de vesículas. Os linfócitos associados aos processos crónicos de inflamação cutânea são portadores de um antigénio à sua superfície (antigénio do linfócito cutâneo), o qual, funcionando como receptor, se ligará ao contra receptor (E-selectina) existente no endotélio vascular.

Na fase crónica, ao nível da epiderme o infiltrado de células T e a espongiose são substituídos por hiperplasia e hiperqueratose, com concomitante aumento do número de células de Langherans com IgE à superfície. Também na derme o infiltrado linfocitário tem uma expressão mais reduzida, relativamente aos macrófagos, mastócitos e eosinófilos.

Para cada uma das fases descritas é possível encontrar um padrão característico de citocinas envolvidas, existindo uma mudança no perfil, inicialmente do fenótipo Th2 (fase aguda), para o fenótipo Th1 (fase crónica), justificando o mecanismo retardado existente na maioria dos doentes com DA.

Para além dos factores genéticos, das alterações constitucionais da pele e dos distúrbios imunes, muitos factores exógenos, específicos e inespecíficos, contribuem para a exacerbação da doença. A tradução clínica é relativamente monótona, sendo o prurido o sintoma sem o qual não se pode estabelecer o diagnóstico de eczema.

Na fase aguda estão presentes o eritema intenso e, por vezes, observam-se vesículas; na fase subsequente, ou subaguda, apresenta-se essencialmente uma secura intensa, ou xerose, com descamação; na fase crónica, para além do prurido associado a lesões em diferentes estádios, aparece outro tipo de lesões resultantes da inflamação persistente e do prurido, como as escoriações e a liquenificação. Os diferentes tipos de lesões de eczema podem coexistir nas distintas fases evolutivas.

A evolução característica ocorre com ciclos de exacerbação, por vezes associados a outras formas de doença alérgica (asma e/ou rinite alérgica que podem ocorrer em cerca de 50% destas crianças). A alteração da barreira cutânea por agentes químicos como solventes, desinfectantes ou soluções alcalinas permitem a persistência de lesões e a penetração de macromoléculas.

2. Urticária e angioedema

Definição e fisiopatologia

Urticária define-se como reacção cutânea característica constituída por pápulas fugazes (< 24 horas) edematosas, com um aspecto típico: redondas ou ovais, de dimensões variáveis, com superfície plana, da cor da pele ou rosa-pálido; o contorno é bem delimitado, por vezes com prolongamentos – os “pseudópodos” e, isoladas ou em grupos, tendem a confluir. Nas formas mais exuberantes existe contorno policíclico em “mapa geográfico”, eritematoso com centro pálido (em anel) (Figuras 1 e 2). O prurido está presente, sendo raros a dor e desconforto. Resultam de fenómeno de alteração vascular com vasodilatação e aumento da permeabilidade de capilares e vénulas da derme superficial.

Por vezes os episódios de urticária repetem-se durante dias ou semanas; convencionou-se a classificação de “aguda” para os casos com recorrências < 6 semanas, e de “crónica” para aqueles casos em que tal duração é superior.


FIGURA 1 e 2. Urticária. Pápulas isoladas e confluentes (NIHDE)

A urticária é uma patologia comum, estimando- se que possa afectar cerca de 15% da população em qualquer idade.
O angioedema (edema angioneurótico ou edema de Quincke), correspondendo a um fenómeno (de aparecimento súbito) equivalente à urticária, e ocorrendo de modo circunscrito na hipoderme/tecido subcutâneo/submucoso, tem maior duração (1-5 dias). A área afectada em geral é circunscrita, está tumefacta, edematosa, mais pálida que eritematosa, é mais dolorosa do que pruriginosa e produz desconforto. Os locais onde mais frequentemente surge são pálpebras, lábios, língua, mãos, pés e genitais. Menos frequentemente o tracto gastrintestinal pode ser atingido originando náuseas, vómitos, diarreia e dores abdominais.
Em comparação com a alteração vascular que surge na urticária, no angioedema a vasodilatação é menor, o edema é mais exuberante e o infiltrado celular inflamatório subcutâneo e ou submucoso é escasso ou ausente.
Salienta-se que o angioedema muitas vezes pode associar-se a episódios de urticária (sobretudo crónica) ou alternar com os mesmos. Raramente (~10% dos casos) o angioedema ocorre sem urticária.
As formas crónicas da síndroma urticária/ angioedema estão mais frequentemente associadas a patogénese por agentes físicos, reumática, endócrina, neoplásica e idiopática.
Na origem da urticária e do angioedema situa-se o mastócito, célula dérmica cujos grânulos contêm substâncias vasoactivas (histamina, prostaglandinas, bradicinina, calicreína, leucotrienos, factor activador das plaquetas), as quais, libertadas durante o fenómeno reaccional, actuam sobre os vasos. A bradicinina tem papel importante na fisiopatologia do angioedema não associado a urticária.
Episódios repetidos de angioedema poderão ocorrer (prevalência entre 1/10.000 a 1/ 50.000), na ausência de urticária, relacionados com défice hereditário (quantitativo ou qualitativo) do inibidor da esterase de C1 (do sistema do complemento) em relação com mutações no gene C1INH. Trata-se de doença autossómica dominante em que a deficiência do inibidor da esterase de C1 conduz à elevação de cininas, particularmente da bradicinina, com consequente vasodilatação e aumento da permeabilidade vascular.
Para além das formas hereditárias, estão descritas formas adquiridas de défice de C1INH, por ex. no contexto de doenças autoimunes ou neoplásicas (linfomas B, tumores sólidos, etc.). Como factores desencadeantes de angioedema por défice de C1INH contam-se, entre outros, certos fármacos (IECA, anticonceptivos orais), traumatismos, infecções.
O mecanismo mais frequente de desgranulação mastocitária é imunoalérgico e resulta da acção de IgE em combinação com determinados alergénios (medicamentos, proteínas, vegetais e animais, inaladas ou ingeridas). A associação a entidades nosológicas diferenciadas reflecte a diversidade de mecanismos subjacentes ao problema clínico em epígrafe (Quadro 1). A concentração de IgE no sangue circulante é baixa, mas a grande afinidade para a membrana dos mastócitos e a estabilidade da sua persistência nesta ligação explicam porque não são necessárias grandes concentrações de antigénio para se verificar o fenómeno de desgranulação e subsequente reacção.

QUADRO 1 – Urticária/Angioedema Classificação etiopatogénica

Infecções
Alimentos
Fármacos
Agentes biológicos
Defeitos genéticos (ex. angioedema hereditário)
Autoimune
Vasculite urticariana e linfocitária com normalidade do Complemento
Agentes físicos
Frio
Pressão
Vibratória
Solar
Aquagénica
Exercício
Associada a outras doenças
Reumáticas
Conectivopatias
Neoplasias
Tiroideia
Outras
Idiopática

Manifestações e formas clínicas

Urticária aguda

A urticária aguda na criança é habitualmente autolimitada e benigna, com duração de apenas alguns dias. As formas agudas, particularmente nos primeiros anos de vida, são mais frequentes do que as formas crónicas, sendo factores etiológicos mais comuns as infecções, a ingestão de alimentos e a administração de medicamentos; de referir que a etiologia é identificada ou suspeitada em 40 a 90% dos casos.

1. Infecções

Os quadros de urticária aguda na criança são, na sua grande maioria, de causa infecciosa vírica. É de referir que, com estes agentes, as lesões podem persistir por mais de 24 horas; por vezes, acompanham-se de lesão residual, traduzindo a existência concomitante de um processo de vasculite associada a imunocomplexos com antigénios de origem vírica (ex. vírus de Epstein-Barr, adenovírus, vírus influenzae, vírus sincicial respiratório, citomegalovírus, vírus herpes-varicela-zoster, parvovírus, enterovírus, rotavírus).
Também infecções bacterianas (estreptocócicas) e parasitárias podem originar tais manifestações cutâneas.
As infecções parasitárias poderão ser causa de urticária em zonas endémicas, particularmente em crianças com eosinofilia e IgE elevada; a ocorrência de urticária aguda e crónica foi relacionada com infestações por Toxocara canis e Giardia lamblia.
Estes quadros, frequentes, não constituem factor preditivo de outra patologia imunoalérgica.

2. Alimentos

Os sintomas podem surgir na sequência de contacto directo do alimento com a pele (alergénios lipofílicos); o leite, os peixes e os mariscos podem conduzir a este quadro. A síndroma de alergia oral é uma forma particular de urticária de contacto provocada por alimentos; é caracterizada por prurido e edema da mucosa oral, língua, lábios e orofaringe. Surge principalmente nos doentes com alergia a pólens, após a ingestão de certos frutos ou vegetais, por um mecanismo de reactividade cruzada IgE mediada. Esta síndroma afecta predominantemente adolescentes. As lesões de urticária podem também surgir na sequência de ingestão de alimentos. O leite, o ovo, o peixe, o amendoim, a soja e o trigo são os alimentos mais frequentemente em causa e o mecanismo implicado é mediado por IgE. Trata-se, em regra, de quadros de fácil identificação, surgindo as lesões entre 30 a 60 minutos após a ingestão do alimento; a evicção deverá levar à sua resolução num período de 24 horas.

3. Fármacos

Qualquer fármaco pode desencadear um quadro de urticária ou angioedema, embora os antibióticos beta-lactâmicos e os anti-inflamatórios não esteroides tenham um papel primordial (estes últimos raramente envolvidos nos grupos etários pediátricos). A reacção surge habitualmente durante os primeiros dez dias da administração do medicamento.
A enzima de conversão da angiotensina metaboliza a bradicinina. Daí que a administração de fármacos IECA, elevando os níveis de bradicinina, possa estar associada a angioedema (ver atrás).
As reacções adversas a fármacos, imunologicamente mediadas, têm uma incidência baixa (menos de 10%). Apesar disso, a incidência de exantema após utilização de fármaco na criança, nomeadamente antibióticos, é uma situação comum; contudo, nestes casos o antibiótico administrado é muitas vezes incorrectamente responsabilizado, visto que na maioria das situações os sintomas são causados pela infecção concomitante.
Se o fármaco for essencial à terapêutica do doente, o diagnóstico definitivo poderá exigir a realização de um teste de provocação por especialista experiente, em ambiente hospitalar e com disponibilidade de meios de reanimação. A indução de tolerância é reservada para os casos em que a administração do fármaco é imprescindível e não existe alternativa (ex. penicilina).

4. Agentes biológicos:

Veneno de himenópteros (vespa e abelha) e outros insectos. A picada ou mordedura com inoculação de vários agentes biológicos pode induzir uma reacção de urticária aguda que, embora na maioria das vezes seja local, pode ser acompanhada de manifestações sistémicas (de urticária generalizada a anafilaxia) em cerca de 5% dos casos.

Urticária crónica

Por definição, a urticária crónica caracteriza-se pela ocorrência de lesões diárias ou quase diárias, com ou sem angioedema acompanhante, durante um período superior a 6 semanas. Na criança a urticária crónica ocorre raramente.

Em 30-50% dos casos de urticária crónica demonstrou-se a presença de autoanticorpos estimulando mastócitos, o que sugere mecanismo autoimune, para alguns casos considerados antes relacionados com urticária crónica idiopática.

As urticárias físicas, subgrupo das urticárias crónicas (10 a 20%), são desencadeadas em indivíduos susceptíveis pela exposição a alguns estímulos ambientais como sejam o calor, o frio, a exposição solar, a água, o exercício, a pressão e a vibração. Com raras excepções, as lesões de urticária e/ou angioedema desenvolvem-se nas áreas da pele expostas, poucos minutos após a aplicação do estímulo físico, ainda que possam ocorrer de forma generalizada a toda a área corporal ou com manifestações sistémicas associadas; verifica-se em regra remissão espontânea, em poucas horas, embora existam formas mais duradouras. As formas retardadas (adquiridas ou familiares) frequentemente constituem problemas de diagnóstico, uma vez que não existe uma associação causal imediata.

As urticárias desencadeadas pelo calor, essencialmente a urticária colinérgica*, representam 2 a 7% das urticárias físicas e, a urticária ao frio, 3 a 5%, sendo esta a forma que mais frequentemente se encontra na prática clínica. As formas mais raras, com uma incidência inferior a 1%, correspondem às urticárias de pressão, solar, vibratória e aquagénica.

Nota: A urticária acompanha-se em geral de alteração da reactividade cutânea-vascular frente a estímulos traumáticos superficiais denominada dermografismo (ocorrendo em 2 a 5% da população geral). Pesquisa-se executando um traço na superfície da pele com estilete de ponta romba, resultando linha eritematosa persistindo cerca de 10-15 minutos.

*A designação deriva do mecanismo patogénico provável de hipersensibilidade à acetilcolina endógena produzida no organismo durante o exercício físico, quer nas placas motoras dos músculos estriados, quer nas glãndulas sudoríparas écrinas.

Diagnóstico

Como foi referido antes, o diagnóstico de urticária ou angioedema é clínico, baseando-se fundamentalmente nas características das lesões, evolução e na observação; a realização de biópsias cutâneas está reservada a algumas formas crónicas da doença.

Nos casos de angioedema, suspeitando-se de défice de C1INH, pode proceder-se ao respectivo rastreio através da determinação da fracção C4 do complemento, a qual está diminuída em todas as formas.

Uma vez confirmado o diagnóstico de urticária ou angioedema, é fundamental uma correcta caracterização das lesões quanto à localização e distribuição, dimensões, frequência, intensidade e factores condicionantes. Uma análise meticulosa deverá avaliar não apenas as características das lesões, mas também os antecedentes pessoais da criança, o seu ambiente doméstico e os hábitos, nomeadamente alimentares e medicamentosos.

As formas agudas, mais frequentes na infância, são habitualmente autolimitadas, raramente necessitando de uma avaliação diagnóstica aprofundada e respondendo adequadamente à terapêutica sintomática.

As formas crónicas, embora menos frequentes, exigem habitualmente, pelo carácter recorrente das lesões, uma investigação adicional (detecção de sensibilização alergénica; patologia infecciosa e autoimune ou neoplásica). Esta abordagem orientará também a escolha de um esquema farmacológico mais adequado à etiologia da urticária ou angioedema em questão.

A análise dos dados colhidos na história clínica, orientarão a investigação diagnóstica ulterior que se pretende esclarecedora mas, também, economicamente viável. Assim, proceder-se-á a uma selecção criteriosa dos exames subsidiários mais indicados a cada situação particular.

Exames para avaliação do estado geral da criança poderão ser úteis numa primeira abordagem: hemograma, determinação de parâmetros bioquímicos, determinação de imunoglobulinas séricas e fracções do complemento, proteína C reactiva, velocidade de sedimentação, exame parasitológico de fezes, etc..

As síndromas de causa física são habitualmente identificadas pela história clínica que permite reconhecer o estímulo desencadeante. A realização de testes específicos conduzirá ao diagnóstico definitivo.

O estudo alergológico, quando indicado, inicia-se habitualmente pela realização de testes cutâneos de alergia por picada aos aeroalergénios e/ou alergénios alimentares a que o doente está exposto de acordo com metodologia padronizada.

De salientar que a urticária crónica pode surgir como primeira manifestação de uma doença sistémica (ex: lupus eritematoso sistémico, tiroidite autoimmune, doença do soro); outros estudos imunológicos poderão então estar indicados como a pesquisa de anticorpos antinucleares, imunocomplexos circulantes ou anticorpos antitiroideus.

Tratamento

a-Urticária

Para além de cuidados gerais, incluindo os de assegurar uma adequada hidratação cutânea, a conduta terapêutica perante um quadro de urticária aguda passa, em primeiro lugar, pela eventual identificação e evicção do agente causal.

Os anti-histamínicos por via oral são os fármacos de eleição no tratamento farmacológico desta situação (a via tópica está proscrita pelo risco de sensibilização fotoalérgica e efeitos extrapiramidais), estando vários anti-histamínicos disponíveis, desde a hidroxizina à cetirizina, loratadina, mizolastina, fexofenadina ou ebastina, aos mais recentes: levocetirizina e desloratadina.

O tratamento deve durar, em média, 5 a 10 dias; no plano terapêutico, a monoterapia com anti-histamínicos constitui o esquema farmacológico, particularmente nas formas agudas, em função da gravidade e da resposta clínica. A associação de duas moléculas distintas representa o escalão de actuação seguinte.

Justifica-se a utilização de corticosteróide sistémico nos casos mais graves, com lesões exuberantes e generalizadas, quando associados a angioedema ou em reacções anafilácticas, (nestas últimas após o tratamento inicial com adrenalina). Devem ser usados ciclos muito curtos (3 a 5 dias) de prednisolona ou equivalente na dose de 0,5 a 1mg/Kg/dia.

A evicção de alimentos ricos em histamina (marisco, bacalhau, morango, cacau, tomate, enlatados, charcutaria, queijos fermentados, entre outros) também têm o seu papel durante a fase aguda; de realçar o papel modesto dos alimentos na etiopatogénese da urticária na criança (aguda ou crónica) ao contrário do que é geralmente assinalado.

Nas urticárias crónicas estão indicados antihistamínicos tipo bloqueantes H2 nos casos sem resposta aos de tipo anti-H1 (por exemplo cimetidina).

De referir efeito sinérgico pela associação dos Anti-H1 + Anti-H2.

b-Angioedema hereditário

Esta forma de angioedema não responde aos anti-histamínicos

nem aos corticóides. Tratando-se da modalidade desencadeada pelos IECA, a medida prioritária é a interrupção do respectivo fármaco, verificando-se melhoria em 48-72 horas. A verificação de edema laríngeo/da glote (ou crise abdominal grave) implica administração de adrenalina, e entubação traqueal no caso de ineficácia da adrenalina.

Tratando-se de défice de inibidor da esterase de C1 (C1INH) está indicada idealmente a administração de concentrado de C1INH (ou plasma fresco congelado na impossibilidade de utilizar o primeiro).

Tratando-se duma situação caracterizada por episódios repetidos de angioedema, fora da crise, deverá actuar-se com medidas preventivas como antifibrinolíticos (por ex.ácido aminocapróico e ácido transexâmico) e androgénios de baixa dosagem (por ex. danazol).

Como nota importante, há que referir que se trata de situações para tratamento em centros especializados.

c-Anafilaxia

Tratando-se duma emergência médica, constituem prioridades, para além da administração imediata de adrenalina, a manutenção da via aérea e da circulação, salientando-se que pode haver associação a angioedema e obstrução brônquica.

A mortalidade atribuída à anafilaxia na sequência de colapso cardiocirculatório deve-se fundamentalmente ao atraso na administração de adrenalina, para além de 30 minutos após início dos sintomas.

As medidas de reanimação incluem oxigenoterapia, fármacos vasoactivos, broncodilatadores inalados (como albuterol) e antagonistas de H1e H2. Os corticóides estão indicados como anti-inflamatórios nas 8-12 horas subsequentes às medidas descritas.

Os casos de anafilaxia em doentes tratados com antagonistas beta-adrenérgicos podem ser refractários à adrenalina. em tal contexto estão indicados glucagom ou atropina (situações para tratamento em centros especializados).

Após a alta o doente deve ser portador de estojo/Kit com adrenalina para ser aplicada por automedicação em casos de recorrência dos sintomas segundo as instruções do médico-assistente.

3. Prurigo estrófulo

Definição

A designação de prurigo é latina e dela deriva o termo prurido.

O prurigo estrófulo ou urticária papular é uma patologia inflamatória cutânea, definida pela existência de máculo-pápulas, do tamanho de cabeça de alfinete com ou sem vesículas, eritematosas e pruriginosas; é frequentemente observada na sequência de picada ou contacto cutâneo com insectos. Sobre o papel da ingestão de certos alimentos não existe consenso. Os grupos etários pediátricos são os mais afectados. Os insectos mais frequentemente incriminados na etiologia do prurigo estrófulo, são os artrópodes, de que é exemplo o Culex pipiens (melga comum) que se encontra em todo o mundo à excepção da Antártida. É conhecido como o mosquito doméstico, por muitas vezes se desenvolver em pequenos reservatórios de água, perto ou dentro das casas. As suas larvas desenvolvem-se em águas estagnadas, com abundância de matéria orgânica.

Esta patologia não constitui factor de risco de expressão de outras doenças alérgicas, exceptuando dermatite atópica.

Fisiopatologia

A pápula associada à picada de insecto foi inicialmente encarada como uma reacção mastocitária cutânea ao componente mecânico dessa mesma picada, decorrente da inoculação de algumas proteínas, nomeadamente enzimas (hialuronidase); existem estudos que objectivam a presença de depósitos de imunoglobulinas e factores de complemento nos vasos da derme sugerindo hipersensibilidade do tipo III (e talvez do tipo I), que justificaria a presença de lesões afastadas do local de contacto dos artrópodes.

A intensidade da reacção e sua consequente expressão clínica são influenciadas pela idade. As picadas sucessivas induzem habitualmente um estádio de tolerância.

Manifestações clínicas e diagnóstico

Factores como a permanência prolongada no exterior dos edifícios (durante a prática desportiva, casual ou recreativa), o suor, os odores fortes, a pele quente e o movimento, parecem aumentar a susceptibilidade à picada.

A reacção clínica à picada pode incluir dois mecanismos: um imediato (minutos após) mais frequentemente traduzido por quadro de eritema e pápula, menos frequentemente por edema extenso ou anafilaxia; e, um retardado (horas).

Este último tem tradução preferencial nas crianças manifestando-se, por ordem decrescente de frequência, por pápulas muito pruriginosas, vesículas, lesões pustulares e exantema semelhante ao eritema multiforme.

O diagnóstico depende do reconhecimento das lesões e, em alguns casos, da identificação do agente causal (especialmente insectos). Não está habitualmente indicada a realização de exames auxiliares de diagnóstico.

Prevenção e tratamento

As medidas de prevenção assentam no uso de roupas que cubram áreas do corpo expostas e na utilização de repelentes de insecto aplicados na pele da criança, em pulseiras ou no próprio vestuário; pode ser recomendado o uso de mosquiteiros e insecticidas, e também a desinfestação do ambiente. A terapêutica tópica, para além da aplicação de emolientes, inclui a prescrição de corticóides que têm um efeito anti-inflamatório; não deverão ser prescritos anti-histamínicos tópicos, que podem desencadear sintomas extrapiramidais ou dermatite de contacto fotoalérgica. Os anti-histamínicos diminuem o eritema, o tamanho da pápula e, a intensidade do prurido; também exercem influência na menor expressão da reacção tardia, pelo que devem ser utilizados como profilácticos (anti-histamínicos não sedativos) durante períodos prolongados (semanas a meses) nos casos de agudizações sucessivas.

Na fase aguda o intenso prurido pode tornar preferíveis os anti-histamínicos de primeira geração, como a hidroxizina, pelo seu efeito sedativo adicional. Os corticóides sistémicos podem ser considerados apenas quando são atingidas grandes áreas corporais, se verifica a reactivação de zonas anteriormente picadas, e nos casos raros de anafilaxia; nestas últimas situações o uso de adrenalina coloca-se na primeira linha de actuação (ver atrás).

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RINITE ALÉRGICA

Definição e importância do problema

A rinite alérgica é uma doença inflamatória crónica da mucosa nasal, resultante de uma reacção de hipersensibilidade imunologicamente mediada, em que se verifica rinorreia serosa, obstrução e prurido nasais, e crises esternutatórias; por vezes é acompanhada de irritação conjuntival.

A prevalência da rinite alérgica tem vindo a aumentar progressivamente nos últimos anos, a par do aumento da prevalência das outras patologias alérgicas. Estima-se que actualmente a rinite alérgica tenha uma prevalência global de 20 a 40% na população mundial, iniciando-se frequentemente as queixas nas primeiras décadas de vida. A avaliação do estudo epidemiológico ISAAC (International Study of Asthma and Allergies in Childhood) demonstrou que 24% das crianças com 6-7 anos e 27% dos adolescentes (13/14 anos) referiam queixas compatíveis com o diagnóstico de rinite alérgica nos últimos doze meses. Os estudos ARPA (Avaliação de Prevalência e Caracterização da Rinite em Portugal Continental) avaliaram a prevalência de rinite em diversos grupos etários, incluindo crianças de idade pré-escolar, adultos e idosos. Nos estudos ARPA-Kids foram avaliadas, por questionário, 5018 crianças entre os 3 e os 5 anos, tendo-se encontrado uma prevalência de rinite de 22%. O diagnóstico médico de rinite tinha sido efectuado em 36% das crianças com clínica e nos últimos 12 meses apenas 37% tinham sido medicadas.

Trata-se de uma doença bastante prevalente, mas frequentemente não diagnosticada e não tratada, com importantes repercussões na qualidade de vida e no desempenho escolar das crianças.

Classificação

A classificação da rinite mais aceite actualmente baseia-se nas características temporais da doença e nas repercussões na qualidade de vida do doente. Assim, a rinite é classificada em intermitente ou persistente, quanto à duração da doença; e em ligeira ou moderada a grave, quanto à intensidade dos sintomas e repercussão sobre a qualidade de vida e actividades diárias (Quadro 1).

QUADRO 1 – Classificação da rinite alérgica

1. Intermitente
Sintomas < 4 dias por semana ou < 4 semanas
2. Persistente
Sintomas > 4 dias por semana e > 4 semanas
3. Ligeira
Sono normal e:
– actividades diárias, desportivas e de tempos livres normais
– actividades laborais e escolares normais
– sem sintomas perturbadores
4. Moderada-grave
Uma ou mais situações:
– sono anormal
– repercussão nas actividades diárias, desportivas e tempos livres
– problemas na escola

Manifestações clínicas e diagnóstico

história clínica é essencial para o diagnóstico preciso de rinite alérgica e avaliação da sua gravidade. Os sintomas incluem obstrução nasal, rinorreia, prurido nasal e crises esternutatórias, podendo cada doente apresentar predomínio de um ou mais sintomas. Podem surgir sintomas associados, nomeadamente roncopatia e/ou distúrbios do sono, cansaço e mau rendimento escolar, corrimento nasal posterior, tosse crónica e perda de olfacto. O perfil temporal, a relevância dos sintomas e a resposta à terapêutica deverão ser avaliados. É também importante investigar eventuais factores desencadeantes e avaliar o contexto ambiental da criança, incluindo exposição alergénica e tabagismo passivo. A existência de outras manifestações da doença alérgica, nomeadamente asma, conjuntivite, eczema e antecedentes familiares de alergia apoiam o diagnóstico de rinite alérgica.

exame objectivo pode auxiliar no diagnóstico de rinite alérgica. Pode observar-se fácies característica, com obstrução nasal e respiração oral com a boca entreaberta, existência de prega atópica nasal e olheiras. Em situações de maior cronicidade poderá mesmo haver anomalias do desenvolvimento facial com má oclusão dentária.

A observação das fossas nasais com uma fonte de luz incidindo sobre o vestíbulo nasal permite observar rinorreia, habitualmente aquosa, hipertrofia e palidez da mucosa dos cornetos inferiores e desvios do septo nasal.

Os testes cutâneos por picada, úteis a partir dos primeiros anos de vida, são largamente utilizados para confirmar o diagnóstico de rinite alérgica-IgE mediada, permitindo identificar os alergénios implicados. Na impossibilidade da sua realização por problemas de pele (eczema ou urticária) ou quando a criança está medicada com anti-histamínicos que anulam o resultado dos testes, poderão efectuar-se análises sanguíneas, com doseamento de IgE específica.

A radiografia dos seios perinasais não está indicada no diagnóstico de rinite alérgica. A radiografia do cavum, de perfil, permite demonstrar a existência de hipertrofia das adenóides. A tomografia axial computadorizada (TAC) dos seios perinasais é um exame radiológico importante para avaliar complicações ou patologias associadas.

Doenças associadas e complicações

A rinite alérgica ocorre muito frequentemente associada à asma brônquica, embora a natureza desta ligação não esteja totalmente esclarecida. Discute-se actualmente as relações entre a patologia alérgica das vias aéreas superiores e inferiores, partilhando aspectos relacionados com a inflamação numa mucosa respiratória contígua. Por outro lado, quando o nariz está obstruído, a respiração faz-se pela boca, o que aumenta a entrada de poluentes e alergénios directamente para os brônquios, sem serem filtrados no nariz.

Num estudo prospectivo nacional, com a duração de oito anos, onde foram incluídas crianças com hiperreactividade brônquica em idade pré-escolar, a rinite foi identificada como o principal factor de risco independente da persistência dos sintomas, mesmo nas crianças que não eram atópicas na data da inclusão.

As queixas nasais devem ser sempre valorizadas. Salienta-se, a propósito, que quem tem rinite tem maior probabilidade de ter asma, e que a rinite não controlada contribui para um pior controlo da asma e para a persistência dos sintomas na idade adulta. O tratamento adequado da rinite reduz a ocorrência de crises de asma e pode também diminuir o número de internamentos motivados por esta doença.

Outras doenças alérgicas estão frequentemente presentes, devendo ser investigadas e tratadas, nomeadamente conjuntivite alérgica e eczema.

A inflamação crónica subjacente à rinite alérgica estende-se à mucosa de revestimento dos seios perinasais predispondo à ocorrência de quadros de rinossinusite. O bloqueio funcional dos ostiae dos seios perinasais inicia as alterações fisiopatológicas que levam ao aparecimento de rinossinusite. Alguns factores mecânicos podem contribuir para quadros prolongados ou recorrentes de rinossinusite, dos quais o mais frequente, nas crianças pequenas, é a hipertrofia das adenóides, mas o desvio do septo nasal também pode ser uma causa. Importa, no entanto, referir que a maioria dos quadros agudos de rinossinusite na criança é causada por infecções víricas, com possibilidade de sobreinfecção bacteriana. A rinossinusite é também uma das causas mais frequentes de tosse crónica na criança.

A obstrução nasal pode provocar alterações no ritmo do sono, sonolência diurna e dificuldades de concentração e de aprendizagem. A ocorrência de otite seromucosa e défice auditivo contribui para os problemas de aprendizagem e mau rendimento escolar, com implicações a nível psíquico e social.

Tratamento

O tratamento da rinite inclui medidas gerais e de controlo ambiental, os medicamentos e as vacinas antialérgicas.

O primeiro passo consiste na evicção alergénica, devendo ser recomendada desde os primeiros sintomas da doença. As medidas de evicção deverão incidir sobre os ácaros do pó, animais domésticos, baratas, fungos e poluentes. É fundamental a evicção de tabagismo passivo, importante factor de risco do aparecimento e gravidade da doença alérgica.

Habitualmente o controlo ambiental não é suficiente e existe necessidade de instituir terapêutica médica. O tipo de fármacos a utilizar depende da gravidade da doença e também dos sintomas mais importantes em cada doente.

Os anti-histamínicos são considerados, por alguns autores, os fármacos de primeira linha no tratamento da rinite alérgica. Actuam como antagonistas dos receptores H1 reduzindo o prurido nasal, os espirros e a rinorreia, sendo, no entanto, pouco eficazes na redução da obstrução nasal. Os anti-histamínicos de 1ª geração não devem ser utilizados pelos seus efeitos secundários, podendo diminuir as capacidades intelectuais das crianças em idade escolar. Os anti-histamínicos de 2ª geração atravessam pouco a barreira hematoencefálica pelo que são bem tolerados, provocando menos sonolência e efeitos acessórios. São habitualmente administrados por via oral, apenas uma vez ao dia, aliviando os sintomas nasais, mas também oculares e cutâneos, caso existam outras doenças alérgicas. Os anti-histamínicos tópicos, aplicados no nariz e nos olhos, têm um rápido início de acção e são habitualmente bem tolerados. Necessitam, no entanto, de ser aplicados duas vezes ao dia para manter a eficácia.

Os corticosteróides têm um papel central no tratamento da rinite alérgica, actuando pelo seu potente efeito anti-inflamatório. São usados geralmente sob a forma tópica, mas nas situações graves podem ser usados por via sistémica, por períodos de 3 a 5 dias. As formas depot de administração sistémica não devem ser utilizadas. Os corticosteróides tópicos reduzem a obstrução nasal, a rinorreia, os espirros e o prurido nasal, sendo mais eficazes do que os anti-histamínicos no controle da obstrução nasal. As doses são variáveis de acordo com a idade, a gravidade da patologia e o corticosteróide seleccionado. Com a posologia correcta são habitualmente fármacos seguros, nomeadamente no que respeita ao crescimento da criança, mesmo em terapêuticas prolongadas. Um aspecto importante é o seu início de acção lento, podendo recorrer-se aos descongestionantes nasais, nos primeiros dias de tratamento, para se obter um efeito mais rápido sobre a obstrução nasal.

As cromonas são seguras, mas apresentam menor eficácia que os anti-histamínicos e os corticosteróides nasais. Pela frequência de administração diária (três a quatro vezes) colocam problemas de adesão à terapêutica.

Os antileucotrienos inibem a acção dos leucotrienos C4 e D4 que são importantes mediadores da inflamação. São usados particularmente em crianças que apresentam também asma brônquica ou sibilância relacionada com infecções virais.

As vacinas antialérgicas são um tratamento dirigido especificamente à causa das alergias de cada doente. Podem ser administradas por injecção ou em gotas que se colocam debaixo da língua. Estão recomendadas em crianças, geralmente acima dos 5 anos. É um tratamento que para além de melhorar os sintomas da doença, pode alterar o curso da doença alérgica a longo prazo, incluindo evitar o aparecimento de asma em crianças com rinite. Deve ser sempre indicada e monitorizada por imunoalergologistas.

De acordo com a actual classificação da rinite alérgica, a abordagem terapêutica desta doença baseia-se na sua periodicidade e gravidade.

Nas formas ligeiras de rinite intermitente podem usar-se os anti-histamínicos orais ou nasais ou os descongestionantes nasais, estes últimos durante um curto período de tempo. Nas formas moderadas/graves usam-se os anti-histamínicos associados a corticosteróides nasais e, eventualmente, um curto período de vasoconstritores. Nas fases agudas pode ser necessário recorrer a corticosteróides orais. O doente deverá ser reavaliado após 2 a 4 semanas, e a terapêutica reajustada.

Na rinite persistente existe habitualmente inflamação permanente da mucosa, pelo que a terapêutica medicamentosa deverá ser mantida por períodos prolongados. Nas formas ligeiras podem ser utilizados anti-histamínicos ou corticosteróides nasais. Uma possível abordagem é a utilização de anti-histamínicos por um período de 2 a 4 semanas; e, se não ocorrer melhoria, deverá proceder-se ao início de corticosteróides nasais. Nas formas moderadas/graves os corticosteróides nasais são a terapêutica de primeira linha. Quando necessário, deve efectuar-se terapêutica com corticosteróides orais ou descongestionantes por um curto período de tempo. Associam-se anti-histamínicos se estiverem presentes prurido nasal, crises esternutatórias e rinorreia importantes. Os antileucotrienos poderão ser alternativa em crianças com rinite e asma, particularmente asma de esforço ou em crianças com sibilância recorrente associada a infecções. Poderão também ser associados em situações de rinite de difícil controlo.

Os doentes deverão ser reavaliados regularmente, mantendo a mínima terapêutica necessária para controlar os sintomas.

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ASMA

Definição e importância do problema

A asma é uma doença heterogénea geralmente caracterizada pela existência de inflamação crónica das vias aéreas, sendo definida por uma história de sintomas respiratórios, como tosse, sibilância / pieira, dispneia e opressão torácica, que variam ao longo do tempo e em intensidade, em conjunto com uma limitação variável do fluxo aéreo expiratório. O cansaço, em repouso ou com o esforço, é igualmente um sintoma muito referido pelos asmáticos de todos os grupos etários.

Esta doença afecta cerca de 10% da população mundial, representando um importante problema de Saúde Pública, quer pela sua prevalência e gravidade, quer pelos custos sociais e económicos que acarreta. Associa-se ainda a outras doenças alérgicas, como a rinite alérgica e a dermatite atópica.

O impacte da doença na qualidade de vida das crianças é considerável, devido a todas as restrições físicas, emocionais e sociais que muitas vezes lhe estão associadas. Importa então conseguir um controlo mantido da doença a um custo sustentável, minimizando o seu efeito nas actividades quotidianas.

Os custos directos relacionados com o tratamento farmacológico, representam apenas uma pequena percentagem dos custos globais da doença, estes muito mais afectados pelos episódios de agudização, pelos internamentos, pelo absentismo escolar e laboral, bem como pela mortalidade associada. Os países desenvolvidos despendem com a asma até 2% das suas despesas em saúde. Mas os custos da doença não controlada são sempre superiores pelo que importa investir em medidas de prevenção.

No nosso país a abordagem da asma, particularmente nos seus aspectos relacionados com a monitorização e tratamento que permitem alcançar o controlo, é regulada pela Norma de Orientação Clínica: Monitorização e Tratamento Para o Controlo da Asma na Criança, no Adolescente e no Adulto (Direcção Geral da Saúde e Ordem dos Médicos).

Etiopatogénese

A asma é uma doença inflamatória crónica complexa, envolvendo múltiplas células (linfócitos, mastócitos, eosinófilos, entre outras) e mediadores celulares. As alterações inflamatórias presentes conduzem ao edema, à hipersecreção de muco, ao aumento da contractilidade das vias aéreas, à obstrução brônquica e à hiperreactividade ou hipersusceptibilidade das vias aéreas, quer a factores específicos (ex. alergénios), quer a inespecíficos (por ex. vírus, poluentes), levando ao aparecimento dos sinais e sintomas característicos. As consequências a longo prazo podem levar à obstrução fixa das vias aéreas e a outros fenómenos da remodelação, correspondente à cicatrização da inflamação crónica.

É esta uma doença multifactorial, dependente da interacção entre factores genéticos e ambientais, iniciando-se as manifestações clínicas na idade pediátrica na maioria dos casos. O aumento recente na prevalência e gravidade das doenças alérgicas em geral e particularmente da asma brônquica na criança, não poderá ser explicado apenas por factores genéticos. Reforça-se assim o papel do ambiente, nas suas componentes do interior e do exterior dos edifícios (Figura 1); por outro lado, diferentes prevalências em populações submetidas a condições ambientais semelhantes realçam a importância dos factores genéticos.

FIGURA 1. A transmissão genética da predisposição para asma, hiperreactividade brônquica e atopia ocorre de modo independente; chama-se a atenção para a influência ambiental marcada

História natural e factores de risco

A história natural da asma em idade pediátrica é uma preocupação significativa, quer para a família das crianças atingidas, quer para os próprios clínicos que as seguem: Passará a doença com a idade? Agravar-se-á? Melhorará? Qual será o efeito do tratamento? Poderão existir alterações irreversíveis da função respiratória em idade precoce?

Estas questões frequentemente formuladas, ficam habitualmente por responder, até porque continua a existir uma atitude pouco esclarecida na abordagem da doença asmática neste grupo etário, associando-a quase invariavelmente a um bom prognóstico clínico, o que frequentemente não se verifica, a curto e a longo prazo. A revisão de vários estudos prospectivos demonstra que os sintomas tendem a persistir durante a vida, particularmente quando está subjacente uma inflamação alérgica das vias aéreas, típica da asma pediátrica, apesar de serem previsíveis períodos assintomáticos de duração variável.

A taxa de internamento por esta doença nas últimas décadas tem-se mantido estável, continuando a atingir maioritariamente a idade pediátrica. Dados recentes mostram que no nosso país mais de metade dos internamentos por asma corresponde a casos pediátricos e que cerca de um terço das crianças asmáticas tem pelo menos um internamento devido à sua doença, situação que devemos considerar intolerável.

A assistência a crianças com doença grave em consultas diferenciadas, particularmente se já sujeitas a internamento ou a múltiplos recursos a serviços de urgência, justifica uma referenciação atempada. E existem experiências muito positivas que demonstram que é possível minimizar o número de internamentos quando se cumprem algumas condições, tal como aconteceu no Hospital de Dona Estefânia como demonstram os resultados alcançados: reduziu-se para 10% o número de internamentos no intervalo duma década: 1º) por existência de um protocolo para o tratamento das agudizações com recurso a broncodilatadores inalados e a corticóides sistémicos; 2º) por referência sistemática dos casos de mais difícil controlo observados nos serviços de urgência para consulta especializada e, finalmente; 3º) após a avaliação clínica em consulta, para além da programação de medidas de controlo ambiental, instituição precoce de terapêutica anti-inflamatória de controlo, nomeadamente com recurso a corticóides inalados e planeamento do tratamento da agudização asmática.

A existência de inflamação nas vias aéreas da criança asmática desde a idade pré-escolar leva a considerar a existência precoce de remodelação das vias aéreas, transversal a todo o espectro de gravidade, constituindo argumentos a favor do desenvolvimento de sequelas respiratórias e indicando uma terapêutica anti-inflamatória; efectivamente tem sido demonstrado que, mesmo em lactentes asmáticos não tratados, a função respiratória degrada-se, confirmando que a inflamação crónica é prejudicial desde os primeiros anos de vida.

Para além das influências genéticas, a epidemia de doença alérgica ocorrida nas últimas décadas, como é o caso da asma, da rinite alérgica, da dermatite atópica ou da alergia alimentar, o aumento recente da incidência das doenças auto-imunes, como é o caso da artrite reumatóide ou da diabetes, a eclosão de doenças inflamatórias intestinais, nomeadamente da doença de Crohn ou da colite ulcerosa, são algumas das doenças crónicas em que a modificação ou desequilíbrio do microbioma, directa ou indirectamente, está envolvido. Nas situações de obesidade, para citar outra patologia emergente, a composição da microbiota, nomeadamente intestinal, está significativamente alterada. E é bem sabida a relação entre obesidade e asma embora também se faça recentemente a reflexão sobre a ocorrência de uma taxa considerável de sobrediagnóstico de asma entre crianças com excesso de peso / obesas.

Como condicionantes do aumento de prevalência da asma brônquica, particularmente em idade pediátrica, estão bem documentados os efeitos de alguns alergénios (por ex. ácaros, pólenes), dos poluentes (por ex. tabagismo) e das infecções (por ex. redução de infestações parasitárias e de algumas infecções bacterianas), bem como dos factores socioeconómicos e genéticos. Estudos recentes têm identificado múltiplos genes associados à asma ou ao fenótipo atópico (por ex. IL4, IL13, CD14, ADRB2, HLA-DRB1, HLA-DQB1, TNF-LTA, FCERIB, IL4R, ADAM33, STAT6, GSDML) influenciando, quer a incidência da doença, quer as suas características clínicas.

Entre os factores de risco que têm sido identificados para a expressão da doença asmática na criança, alguns serão assim dificilmente susceptíveis de prevenção, nomeadamente os genéticos, contrastando com os ambientais (por ex. exposição alergénica, tabagismo e outros poluentes, infecções víricas, regime alimentar, obesidade, sedentarismo), de cuja modulação podem ser esperados ganhos significativos nomeadamente em termos de gravidade.

Mas é esta uma área em que o conhecimento evolui constantemente, e em que resultados controversos são encontrados. Como exemplo, podemos citar os resultados contraditórios que têm sido encontrados entre o aumento do risco de asma em filhos de gestantes com deficiência de vitamina D; de acordo com estudos aleatorizados e controlados recentes, não existe actualmente evidência científica que permita suportar a suplementação com vitamina D como forma de prevenir ou melhorar o controlo da asma pediátrica, nomeadamente reduzindo as agudizações.

Critérios de gravidade e classificação

Na classificação da gravidade devemos considerar diferentes níveis que se relacionam com os degraus terapêuticos que permitem obter o seu controlo. Ou seja, será esta uma classificação baseada nos sintomas e no resultado da avaliação funcional respiratória (espirometria), que habitualmente será efectuada retrospectivamente, embora possa ter a sua aplicação, quer em estudos clínicos, quer em rastreios epidemiológicos. Em centros diferenciados é possível determinar a fracção do óxido nítrico exalado (FENO), marcador da inflamação eosinófilica, que pode contribuir para aferir do efeito da medicação instituída; no entanto, a sobreposição e a variabilidade de resultados e a falta de limiares de positividade bem estabelecidos leva a que estas medições não estejam ainda suficientemente validadas e logo recomendadas em idade pediátrica.

A asma ligeira será a que corresponde ao indivíduo que apresenta sintomas ocasionais, não diários, ou sintomas nocturnos >2 vezes/mês mas <1 vez/semana e cuja função pulmonar (volume expiratório máximo no 1º segundo – FEV1) apresenta valores superiores a 80% do valor teórico previsto, correspondendo aos degrau 1 e 2 do tratamento; asma moderada, descreve-se quando os sintomas são diários, afectando a actividade diária, ou sintomas nocturnos >1 vez/semana, ou estando a função respiratória entre 60 e 80% do valor teórico previsto, e que corresponde ao degrau 3 do tratamento; asma grave, com sintomas contínuos e actividade física muito limitada, sendo os sintomas nocturnos também muito frequentes, encontrando-se a função respiratória com valores inferiores a 60% do previsto, sendo necessária a instituição de medicação dos degraus 4 e 5.

É de referir que a existência de, pelo menos, um critério de gravidade (sintomas diurnos, nocturnos ou função pulmonar) coloca o asmático nesse patamar de gravidade. No caso de existirem agudizações graves, mesmo que pouco frequentes, deverá ser a criança classificada como tendo o equivalente a uma asma persistente moderada, correspondendo à instituição de medicação de controlo do degrau 3.

FIGURA 2. Padrão radiográfico do tórax (PA) de asma com enfisema (NIHDE)

Quanto à classificação dos episódios agudos de asma, caracteriza a crise ligeira a existência de tosse e pieira audível, mas sem diminuição da actividade física, sem aumento da frequência respiratória, sem cianose, permitindo pronunciar frases extensas e não interferindo na actividade escolar; função respiratória dentro da normalidade; melhoria espontânea ou com doses habituais de β2-agonistas; na crise moderada evidencia-se o uso dos músculos acessórios, um aumento da frequência respiratória, uma restrição da marcha, apenas permitindo pronunciar até cerca de 5 palavras seguidas; interferindo na frequência escolar; necessitando de maiores doses de β2-agonistas e, com frequência, também de corticóides orais; na crise grave a cianose está presente, tal como dificuldade respiratória marcada, por vezes já sem sibilos audíveis, só permitindo pronunciar até 3 palavras; existe incapacidade na marcha, com resposta débil aos β2-agonistas; é necessária a monitorização da saturação em oxigénio e oxigenoterapia, implicando cuidados hospitalares urgentes / emergentes.

A Figura 2 mostra uma radiografia do tórax (póstero-anterior) de uma criança de 8 anos com uma crise de asma: sinais de hiperinsuflação pulmonar, horizontalização das costelas, abaixamento do diafragma e acentuação do retículo peribrônquico.

Controlo da asma

A asma quando não está controlada perturba muito a qualidade de vida, quer da criança, quer dos seus cuidadores. Falta de controlo significa passar mal durante o dia e/ou dormir mal, não ter uma actividade física normal, necessitar regularmente de medicação de alívio, ter crises de dispneia, necessitar de recorrer a serviços de urgência ou a consultas não planeadas ou ficar internado.

Actualmente, a abordagem a longo prazo da asma deslocou-se da estimava da gravidade da asma, para a avaliação do controlo dos sintomas (Quadro 1), apostando em assegurar que o asmático, de todos os grupos etários, pode ter uma vida normal que não é influenciada pela doença. Compete ao clínico, em parceria com a criança e os seus cuidadores, definir a abordagem que permita alcançar o controlo total da doença, bem como a avaliação e redução do risco futuro relacionado com o prognóstico, dependente do risco de agudizações, da obstrução das vias aéreas e dos efeitos secundários potenciais das medicações (Quadro 2).

De acordo com os sintomas antes do tratamento, que classifica a gravidade da doença tal como foi referido, assim será definido o degrau terapêutico a instituir (Quadros 3, 4 e 5).

QUADRO 1 – Níveis de controlo dos sintomas de asma (adaptado de GINA / NOC 065/2011, revisão 2016). Qualquer agudização exige reavaliação do tratamento de controlo; por definição, uma agudização, em qualquer semana, identifica asma não controlada

Crianças, adolescentes e adultos
Controlo dos sintomas
Nas últimas 4 semanas:
Sintomas diurnos em 2 ou mais dias/semana? Sim □ Não □
Algum despertar nocturno por asma ou tosse nocturna? Sim □ Não □
Medicação de alívio em 2 ou mais dias/semana? Sim □ Não □
Alguma limitação na actividade condicionada pela asma? (comparativamente a outros indivíduos do mesmo grupo etário) Sim □ Não □
Nível de controlo da asma
Bem controlada Parcialmente controlada Não controlada
 Nenhum dos anteriores 1 a 2 dos anteriores 3 a 4 dos anteriores

QUADRO 2 – Avaliação do risco futuro em crianças e adolescentes com diagnóstico de asma (adaptado de GINA / NOC 065/2011, revisão 2016)

– Avaliação dos factores de risco à data do diagnóstico e periodicamente, particularmente asmáticos com agudizações recentes.
– Avaliação da função pulmonar, nomeadamente por espirometria, de acordo com as especificidades etárias no início do tratamento e periodicamente para monitorização e avaliação do risco futuro.
Factores de risco para agudizações
Sintomas de asma não controlada
Pelo menos uma agudização grave no último ano
Início habitual das agudizações de forma sazonal (outono/inverno/primavera)
Uso excessivo de beta-2 agonistas de acção curta (numa base quase diária)
Terapêutica inadequada com corticóide inalado: não prescrito, adesão deficiente, técnica inalatória incorrecta
Redução do FEV1 particularmente se < 60% do valor teórico previsto
Factores psicológicos ou socioeconómicos major (do asmático, da família / cuidadores)
Exposição: tabaco, aeroalergénios, outros poluentes ou irritantes inalatórios, particularmente quando coincidente com infecção viral
Comorbilidades: obesidade, doença do refluxo gastresofágico, rinite / rinossinusite, dermatite atópica, alergia alimentar, anafilaxia, síndroma de apneia obstrutiva do sono, insuficiência cardíaca, tromboembolismo pulmonar
Eosinofilia sanguínea ou na expectoração
Gravidez (em especial na adolescente)
Internamente anterior com ou sem ventilação mecânica
Factores de risco para desenvolvimento de obstrução brônquica fixa
Ausência de tratamento com corticóide inalado
Exposição: tabaco (activo/passivo), poluentes químicos
Redução do FEV1 inicial, grande variabilidade de FEV1
Broncorreia, eosinofilia sanguínea ou na expectoração
Internamentos por asma
História pregressa de bronquiolite grave, agudizações frequentes, parto pré-termo, baixo peso ao nascer
Factores de risco dependentes de efeitos adversos da terapêutica farmacológica
Sistémicos: ciclos frequentes de corticóides orais; duração prolongada de corticóides inalados em doses elevadas; terapêutica concomitante com inibidores do citocromo P450
Locais: corticóide inalado em altas doses; técnica inalatória deficiente; deficiente protecção da pele ou mucosa ocular quando utilizado corticóide inalado com câmara expansora com máscara facial.

QUADRO 3 – Recomendações para tratamento inicial de controlo em crianças e adolescentes (adaptado de GINA / NOC 065/2011, revisão 2016)

Sintomas e factores de risco na apresentação Degraus terapêuticos iniciais indicados
Sintomas pouco frequentes (sintomas ou uso de terapêutica de alívio <2/mês e sem sintomas nocturnos nas últimas 4 semanas); ausência de factores de risco para agudizações e sem agudizações no último ano Degrau 1
Sintomas pouco frequentes, mas um ou mais factores de risco para agudizações Degrau 2
Sintomas frequentes (sintomas ou uso de terapêutica de alívio 2 ou mais vezes/mês e/ou sintomas nocturnos nas últimas 4 semanas) Degrau 2 ou 3, consoante presença de sintomas nocturnos e/ou factores de risco para agudizações
Sintomas ou agudizações frequentes Tratamento de agudização e terapêutica de controlo em Degrau 3 a 5

QUADRO 4 – Terapêutica por degraus para controlo da asma de crianças com 6 anos ou mais, adolescentes ou adultos

Degrau 1ª linha tratamento controlo Outras opções
(por ordem de custo/efectividade)

Legenda: Ø, nenhuma. CI, corticóide inalado. LABA, agonista-β2 inalado de acção longa. LAMA, anticolinérgico de acção longa.

Degrau 1: Ø Ø
Degrau 2: CI dose baixa Antileucotrieno
Degrau 3: CI dose baixa + LABA

– CI dose média

– CI dose baixa + antileucotrieno

– CI dose baixa + metilxantina (≥12 anos)

Degrau 4: CI dose média/alta + LABA

– CI dose alta + antileucotrieno

– Adicionar LAMA (≥12 anos)

– CI dose alta + metilxantina (≥12 anos)

Degrau 5:

Considerar acrescentar:

– LAMA (≥12 anos)

– Omalizumab (anti-IgE) (asma alérgica grave, ≥6 anos)

– Mepalizumab (anti-IL5) (asma eosinofílica grave, ≥12 anos)

– Corticóide oral dose baixa

– CI dose alta + antileucotrieno

– Adicionar LAMA (≥12 anos)

– CI dose alta + metilxantina (≥12 anos)

Em todos os degraus:

· Medicação de alívio: 1º linha – β2-agonista– inalado de acção curta quando necessário, incluindo pré-exercício se broncoconstrição induzida pelo exercício.

· Uma vez atingido o controlo e mantido por pelo menos 3 meses, deve ser tentada uma redução gradual da terapêutica, procurando-se assim identificar a terapêutica mínima que é capaz de controlar o asmático.

QUADRO 5 – Terapêutica por degraus para controlo da asma de crianças menos de 6 anos

Degrau 1ª linha tratamento controlo Outras opções
(por ordem de custo/eficácia)

Legenda: Ø. nenhuma. CI, corticóide inalado. LABA, agonista-β2 inalado de acção longa.

Degrau 1: Ø Ø
Degrau 2: CI dose baixa Antileucotrieno
Degrau 3: CI dose média

– CI dose baixa + antileucotrieno

– CI dose baixa + LABA (atenção idade de aprovação)

Degraus 4/5:

Aumentar dose de CI para controlo

Doses adicionais CI durante agudizações

Acrescentar antileucotrieno

CI + LABA (atenção idade aprovação)

Corticóide oral dose baixa

 
Degrau 5:

Considerar acrescentar:

– LAMA (≥12 anos)

– Omalizumab (anti-IgE) (asma alérgica grave, ≥6 anos)

– Mepalizumab (anti-IL5) (asma eosinofílica grave, ≥12 anos)

– Corticóide oral dose baixa

 

Em todos os degraus:

· Medicação de alívio: 1ª linha – β2-agonista inalado de acção curta quando necessário.

Do diagnóstico ao tratamento de controlo

  1. Episódios de tosse, pieira e dificuldade respiratória são muito frequentes na criança desde os primeiros anos de vida. E se estas são manifestações que identificam doenças infecciosas agudas, como é o caso da bronquiolite vírica, são também características de patologias crónicas, como é o caso da asma. Um episódio de bronquiolite surgirá em proporções podendo atingir até 50% das crianças até aos 3 anos de idade, e episódios repetidos de sibilância irão ocorrer em cerca de 25% dos indivíduos do mesmo grupo etário. E se os episódios de dificuldade respiratória se repetem, sempre considerado o diagnóstico diferencial, será pertinente admitir que podemos estar perante fenótipos de asma, pois esta é uma doença heterogénea desde a primeira infância, com várias apresentações e evoluções (Quadro 6).
    Fenótipos clássicos da síndroma asmática precoce na criança são:
    • A sibilância transitória (que corresponde a cerca de metade destas crianças, em que os sintomas são transitórios e desaparecem antes da idade escolar, sendo sobretudo crianças prematuras, filhos de pais fumadores e sem atopia);
    • A sibilância persistente não atópica (em 20% dos casos, os sintomas persistem até à adolescência e estes casos não têm habitualmente atopia, associando-se a um bom prognóstico clínico e funcional); e, finalmente,
    • A sibilância persistente atópica (as crianças deste grupo têm atopia e irão na sua maioria manter os sintomas até à adolescência, continuando pela vida adulta, podendo ter um prognóstico desfavorável pelo risco de perda de função pulmonar).

QUADRO 6 – Probabilidade do diagnóstico de asma na criança em idade pré-escolar com sibilância recorrente

Probabilidade Elevada   Probabilidade Baixa
Características
Sintomas associados
Sintomas recorrentes, com intervalos livres
Sibilância, tosse, dispneia

Tosse isolada
Sintomas contínuos

Sim Sintomas agravados à noite, com esforço físico, exposição a alergénios, irritantes, frio, infecções virais Não ou variável
Sim Sintomas e sinais de eczema e/ou rinite Não
Sim História de atopia nos familiares directos Não
Sim Nas agudizações auscultação de sibilos, dispersos, bilaterais Não
Sim pelo menos parcial Resposta ao tratamento broncodilatador Não ou variável
Não Sintomas e sinais de doença sistémica Sim
Não Sintomas e sinais sugestivos de outros diagnósticos Sim

 

  1. Importa então diagnosticar correcta e precocemente, sendo este um passo essencial para obter o controlo, objectivo último da abordagem da asma. E o tratamento de agudização e, em especial, o de prevenção, pode e deve ser feito em todas as crianças com asma e não há idade mínima para o começar. É a qualidade de vida da criança que está a ser afectada. No início, um tratamento que frequentemente inclui inaladores (sempre com câmaras de expansão na idade pré-escolar) pode ser uma preocupação para os cuidadores. Mas logo nas primeiras semanas já se vê a diferença: as crianças já dormem bem, movimentam-se, brincam e sorriem sem sintomas ou limitações. A asma pode não ser uma doença para toda a vida mas, em cada momento, tem de estar controlada. E é essa a obrigação da equipa de saúde. Ter a competência para, em rede, ajudar o asmático e a sua família a alcançar o controlo desta doença, com uma mortalidade mínima na idade pediátrica, mas que mantém uma morbilidade inaceitável.
  2. No âmbito da actuação preventiva e terapêutica, importa realçar pontos fundamentais a inquirir e valorizar, nomeadamente na relação entre os sintomas e o diagnóstico:
    • Episódios recorrentes de pieira?
    • Tosse irritativa nocturna?
    • Tosse ou pieira após exercício?
    • Tosse, pieira, opressão torácica após exposição a aeroalergénios ou irritantes?
    • Doenças respiratórias consideradas pelo paciente “Constipações que descem aos brônquios”?
    • Resultado da resposta ao tratamento?

    Em relação aos factores de agudização é necessário posicioná-los pela sua frequência: alergénios e infecções respiratórias víricas são responsáveis pela maioria das agudizações asmáticas; exercício, alterações climáticas, poluentes, como é a exposição tabágica, alimentos, aditivos e fármacos são, por ordem decrescente de frequência, factores a ter em conta.
    Importa ainda salientar em relação ao início e persistência de sintomas, que a maioria da sibilância recorrente nos primeiros anos de vida é transitória, com bom prognóstico; no entanto, a maioria dos casos de asma grave começa nos primeiros anos de vida.
    No que respeita à exposição a alergénios, cabe uma referência especial aos ácaros domésticos: a sensibilização a estes artrópodes de distribuição ubiquitária relaciona-se com os níveis e com a duração da exposição.
    A redução da concentração de alergénios, podendo não impedir a sensibilização primária, influencia positivamente a evolução clínica. Para atingir tal objectivo utilizam-se métodos de barreira ou oclusivos – capas de colchão e das almofadas (permeáveis ou impermeáveis), idealmente aplicadas em colchões novos ou recentes, impedindo a colonização).

  3. Para o controlo da maioria das situações clínicas de asma, importa conhecer aspectos relacionados com evicção alergénica e farmacoterapia, englobados num programa educativo e de promoção de saúde que será complexo e condicionado à necessidade de controlo da doença.
    Avaliar, ajustar o tratamento (farmacológico e não farmacológico) e rever a resposta, deve ser o ciclo que se aplica e repete em cada consulta e que poderá permitir melhorar os resultados.
    Um plano de acção escrito, individualizado, deve ser fornecido na primeira consulta e revisto nas subsequentes, devendo conter informação sobre os medicamentos diários de controlo; os sintomas e sinais sugestivos de agravamento ou perda de controlo; ajuste da terapêutica incluindo medicamentos a utilizar na agudização, definindo claramente quando e como iniciar terapêutica de alívio, nomeadamente com recurso a broncodilatadores de início de acção rápido por via inalatória e corticóides sistémicos; tratamento de comorbilidades que tenham sido identificadas.

Tratamento não farmacológico

Controlo ambiental – evicção alergénica

Se o controlo ambiental para alergénios do exterior dos edifícios se revela difícil (ex. pólenes e fungos atmosféricos), já algumas medidas visando o interior das residências podem ser essenciais:

  • Lavagem da roupa da cama, incluindo almofada e edredão (que devem ser sintéticos), idealmente a mais de 55ºC; existem também capas para almofada e edredão, no caso de não ser possível a sua lavagem (essencial).
  • Remover peluches da cama / lavagem regular (semanal a mensal), a 60ºC, dos que permanecerem; em alternativa congelar os peluches e lavar a temperaturas inferiores (essencial).
  • Remover mobiliário acolchoado e alcatifas, particularmente se antigas, preferindo pavimentos em madeira, sintéticos ou aplicação de alcatifas laváveis; evitar livros no quarto (desejável).
  • Aspiração semanal com dispositivo apropriado (aspirador com filtro de alta eficiência – high-efficiency particulate air – HEPA) (desejável).
  • Limpar o pó com pano húmido (desejável).
  • Redução da humidade relativa – desumidificadores e aumento da ventilação (desejável).
  • Acaricidas – pouco relevantes em locais muito infestados, sendo considerado discutível o seu interesse clínico; indicados no pavimento se não é possível retirar alcatifas (desejável).

Animais domésticos ou de companhia – Em crianças com sensibilização clinicamente relevante, a exposição mantida associa-se a maior gravidade e, a exposição aguda, relaciona-se com agudizações.

  • Medidas: Não ter animais de companhia ou retirá-los da residência (eficácia comprovada); atenção que o contacto também pode ocorrer noutras habitações ou mesmo no ambiente escolar. O benefício pode não ser imediato (níveis de alergénio podem reduzir-se progressivamente até durante 6 meses), mas será tanto mais rápido se associado a outras medidas (aspiração). Nos casos clínicos de sensibilização ao gato, nenhuma outra medida, se o animal estiver presente, poderá influenciar significativamente a exposição alergénica.
    Se o animal permanece: Lavagem do(s) animal(is) permitindo reduzir transitoriamente (uma semana) os níveis de alergénios. Filtragem do ar (filtros HEPA ou ionizadores colocados no quarto de dormir). Aspiração regular (aspirador com filtro HEPA). Aplicação de capas no colchão e na almofada. Remoção de reservatórios de alergénios (alcatifas, carpetes, estofos).
    Limitar a circulação dos animais nos quartos de dormir; porta do quarto sempre fechada.

Baratas – Factor de risco para a gravidade clínica, incluindo agudizações. Muito difícil a erradicação, particularmente em ambientes urbanos.

  • Medidas: Inspecção e identificação dos insectos, permitindo prever locais principais de infestação.
    Localização e erradicação de fontes de alimentos e de água.
    Insecticidas, permitindo reduzir a população de baratas (exterminação) embora se mantenham os alergénios.
    Limpeza da casa, não deixando restos de comida acessíveis, aspiração profunda e lavagem após aplicação das medidas anteriores. Há que ter cuidado com as condutas de lixo.

Fungos – A contaminação é habitualmente efectuada do exterior através das janelas (ex. Alternaria), embora alguns fungos possam ser predominantemente encontrados dentro dos edifícios.

  • Medidas: Remover ou lavar materiais contaminados, como tapetes, mobiliário, papel de parede. Aplicação de fungicidas.
    Prevenção da contaminação do exterior – fechar janelas; recurso a ar condicionado (caro).
    Controle humidade relativa através da utilização de desumidificadores, aumento da ventilação (atenção às cozinhas e salas de banho).
    Uso de filtros de alta eficiência – filtração do ar e aspiração (HEPA).
    Secar bem as roupas antes de serem guardadas.
    Evitar plantas nos quartos de dormir.

Pólenes – Para permitir alguma protecção ou minorar os sintomas.

  • Medidas: Reduzir a actividade em ambiente exterior, particularmente em áreas de elevada polinização.
    Evitar praticar desportos ao ar livre ou campismo; evitar caminhar em grandes espaços relvados ou cortar relva.
    Manter as janelas fechadas quando as contagens de pólenes forem elevadas, particularmente em dias de vento forte, quentes e secos.
    Usar filtros de partículas de grande eficácia nos carros e viajar com as janelas fechadas; no caso dos motociclistas, deverão usar capacete integral.
    Usar óculos escuros nas actividades no exterior dos edifícios.

Tratamento farmacológico

No tratamento farmacológico, dispomos de vários recursos terapêuticos, que vão dos corticóides inalados e sistémicos, aos agonistas b2-miméticos de curta e longa duração de acção, aos anticolinérgicos, igualmente de curta e longa duração de acção, às metilxantinas e aos antagonistas dos leucotrienos, até vários agentes imunomoduladores.

Nesta secção procede-se à descrição dos principais fármacos utilizados no tratamento da asma e dos diversos esquemas de tratamento de acordo com os quadros clínicos (Quadros 4 e 5).

Fármacos

β2-agonistas:

Os β2-agonistas são os broncodilatadores mais potentes, actuando por estimulação dos receptores β-adrenérgicos. O Quadro 7 descreve os efeitos dos β2-agonistas em diferentes órgãos e sistemas.

QUADRO 7 – Efeitos principais dos β2-agonistas em diferentes órgãos/sistemas

Tecido Resposta
Vias aéreas Relaxamento músculo liso – broncodilatação
Aumento dos movimentos ciliares
Aumento da secreção de muco
Inibição da desgranulação mastocitária
Coração Aumento da frequência cardíaca
Vasos Vasodilatação
Aumento da permeabilidade vascular
Efeitos metabólicos Gluconeogénese
Hipocaliémia
Aumento da produção de lactato

Na prática clínica são utilizados fundamentalmente dois tipos destes agonistas:

  1. de acção curta, como o salbutamol (albuterol), a terbutalina e o procateral.
    Têm um início de acção rápida, em poucos minutos, atingindo o máximo de actividade cerca de 60-90 minutos após administração por via inalatória. Os seus efeitos duram até 4-6 horas, sendo o mais relevante o relaxamento do músculo liso; são o tratamento de primeira linha nas crises de asma/agudizações (Quadro 8).

QUADRO 8 – β2-agonistas

Puff<>insuflação sob pressão ou pressurização; Câmara expansora (ver adiante)

• Broncodilatadores mais potentes, de primeira escolha no serviço de urgência

• Via inalatória é a mais eficaz

• Início de acção quase imediato

• Efeitos secundários mínimos

Medicamento Dose Frequência Observações

Salbutamol

(sol. respiratória)

1 ml = 0,5 mg

– 0,03ml/kg/dose (0,15 mg/kg)
+
SF (mínimo de 0,3 ml e máximo de 1 ml)

– 0,3 mg/kg/hora, até 30mg/hora

– 20/20 min

– Nebulização contínua

– Monitorização dos efeitos secundários

Salbutamol

(+câmara expansora)

pMDI: 100 μg /puff

50 μg/kg/dose (máx. 10 puffs = 1.000 μg). Intervalo de 30 a 60 segundos entre cada puff 20/20 min – Limitação da dose pela monitorização dos efeitos secundários

Procaterol

(sol. respiratória)

1 ml = 100 μg

< 20 kg: 0,3 ml

> 20 kg: 0,5 ml

2/2 horas  

Procaterol

(+ câmara expansora)

pMDI = 10 μg / puffs

< 12 anos: 1 puffs

>12 anos: 2 puffs

2/2 horas – Na criança não existem estudos controlados dose/resposta
  1. de acção prolongada, como formoterol e o salmeterol com efeito broncodilatador que dura cerca de 12 horas, aprovados para crianças acima dos 4-5 anos. O formoterol tem um ínicio de acção mais rápido (1-3 minutos após inalação) do que o salmeterol (cerca de 10-20 minutos). Ao cabo de 30 minutos a sua acção é comparável à do salbutamol (de curta acção). Recentemente foi disponibilizado o vilanterol, cuja duração de acção é de 24 horas, estando indicado a partir dos 12 anos de idade.

Estes fármacos estão contra-indicados em monoterapia, devendo ser sempre indicados em associações a corticóides, nomeadamente quando a corticoterapia inalada em dose baixa ou média não é suficiente para controlar a doença.

Corticóides:

Os corticóides, inalados ou sistémicos, são complemento essencial para o controlo do processo inflamatório subjacente às agudizações e ao processo inflamatório persistente. O Quadro 9 discrimina os corticóides inalados mais empregues e respectivas doses.

QUADRO 9 – Doses equipotentes estimadas de corticóides inalados

Fármaco Dose baixa diária (mcg) Dose média diária (mcg) Dose alta diária (mcg)
Adolescentes e adultos (≥ 12 anos)
Beclometasona (pMDI) 100-200 >200-400 >400
Budesonida (inalador pó seco/pMDI) 200-400 >400-800 >800
Fluticasona (propionato) (inalador pó seco/pMDI) 100-250 >250-500 >500
Fluticasona (furoato) (inalador pó seco) 100   200
Mometasona (inalador pó seco) 110-220 >220-440 >440
Crianças dos 6 aos 11 anos
Beclometasona (pMDI) 50-100 >100-200 >200
Budesonida (inalador pó seco/pMDI) 100-200 >200-400 >400
Fluticasona (propionato) (inalador pó seco/pMDI) 100-200 >200-500 >500
Mometasona (inalador pó seco) 110-220 >220-440 >440
Crianças até aos 5 anos
Beclometasona (pMDI) 100 200  
Budesonida (pMDI) 200    
Fluticasona (propionato) (pMDI) 100-125 200-250  

No Quadro 10 são referidas as doses de metilprednisolona e prednisolona a usar por via sistémica (tratamento de curta duração, nomeadamente durante as agudizações).

QUADRO 10 – Corticosteróides

• Anti-inflamatórios com papel reconhecido no controlo dos processos fisiopatológicos da asma (↓ morbilidade e mortalidade)
• Melhoria da resposta aos agonistas β2 (actuação a nível dos receptores)
• Via de administração sistémica
• Início de acção em 2 a 8 horas
• Efeitos secundários (raros durante cursos terapêuticos curtos até 3 dias)
Medicamento Dose Frequência Observações
Metilprednisolona 1 a 1,5 mg/kg/dose Até 4/4 horas Máximo 48 mg/dose EV ou oral
Prednisolona 2 a 2,5 mg/kg/dose Até 4/4 horas Máximo 60 mg/dose EV ou oral
Anticolinérgicos:

O brometo de ipratrópio, derivado sintético da atropina, é o anticolinérgico de curta acção actualmente mais empregue como broncodilatador. Comparativamente ao salbutamol, o brometo de ipratrópio tem um início de acção mais lento, com efeito máximo cerca de 60 minutos após inalação, durando a sua acção 4-8 horas. O Quadro 11 descreve a posologia (nebulização e pMDI).

Os anticolinérgicos têm a sua indicação em associação aos β2-agonistas nas agudizações moderadas a graves (podendo reduzir a taxa de internamento), ou em alternativa aos últimos se existir intolerância a estes fármacos.

Recentemente passou a estar disponível no tratamento de controlo da asma um anticolinérgio de acção prolongada, o tiotrópio (com dispositivo inalatório que disponibiliza pequenas partículas), com indicação a partir dos 12 anos, em casos de asma com agudizações apesar do tratamento com corticóides inalados e broncodilatadores β2-agonistas de longa acção. A dose é de 5µg/dia, numa toma única diária, estando o seu efeito benéfico relacionado com o facto de ser um antagonista preferencial dos receptores muscarínicos do tipo 3 e por ter uma dissociação lenta desses mesmos receptores.

QUADRO 11 – Brometo de ipratrópio: posologia

Via  

Idade

 

Frequência

NB: Deve adicionar-se na mesma nebulização com salbutamol; não deve ser utilizado como terapia de 1ª linha isoladamente.

  Neonatal

1 mês–2 anos

>2 – 12 anos >12-18 anos

(nº tomas/dia)

Aerossol
(pMDI: 20 ug/puff)
  Até 120 microgramas    
Nebulização
(solução:250 ug/2mL)
Igual a < 1 ano < 1 ano: 125μg
≥ 1 ano: 250μg
< 5 anos: 250μg
≥ 5 anos: 500μg
500μg Dose/nebulização
(pode ser repetida
entre cada 2/2
ou 6/6 horas)
Xantinas:

As teofilinas são cada vez menos utilizadas, pois a um efeito broncodilatador menos potente, associa-se a probabilidade de ocorrência de efeitos secundários numa percentagem considerável de casos; a sua indicação fica reservada para quando existe insucesso no tratamento com agonistas β2.

Trata-se de fármacos rapidamente absorvidos por via oral, rectal ou parentérica, atingindo níveis séricos máximos cerca de 2 horas após a administração.

A dose recomendada para crianças com mais de 6 meses é 10mg/kg/dia até dose máxima inicial de 300 mg/dia; a dose pode ser aumentada de 3-3 dias até 16 mg/kg/dia (600mg/dia).

A “janela” terapêutica é estreita (5-15mg/ml); obtém-se broncodilatação a partir de concentração sérica de 5mg/ml.

Antagonistas dos receptores dos leucotrienos:

Para além de algum efeito broncodilatador, aditivo ao dos β2-agonistas, estes fármacos têm acção anti-inflamatória.

Em Portugal estão comercializados: montelucaste para crianças com idade superior a 6 meses (4mg/dia entre os 6 meses e os 5 anos e 5mg/dia para >5 anos) em dose única diária, oral, podendo ser administrado às refeições; zafirlucaste para > 12 anos em 2 doses diárias de 20mg por via oral.

Terapias biológicas com recurso a anticorpos monoclonais:

Estes tratamentos biológicos estão indicados no tratamento da asma alérgica grave, a partir dos 6 anos de idade (omalizumab) e na asma eosinofílica grave, a partir dos 12 anos de idade, estando a sua utilização reservada a centros hospitalares especializados, esgotados outros recursos terapêuticos de controlo.

Esquemas de tratamento

Para melhor compreensão do enquadramento dos fármacos (associados a outros procedimentos) no tratamento da asma, são consideradas duas situações:

  1. A agudização de asma como situação urgente ou emergente recorrendo-se ao serviço de urgência hospitalar.
  2. Actuação em regime ambulatório ou no domicílio (controlo a longo prazo).

A) Agudização de asma

Os Quadros 12, 13 e 14 esquematizam a actuação inicial perante respectivamente, agudização ligeira a moderada, grave e emergente.

QUADRO 12 – Agudização de asma ligeira a moderada

• Salbutamol nebulizado ou em pMDI até 3 doses na 1ª hora
• Oxigenoterapia para manter saturação em O2 > 95%
• Corticóide sistémico oral se tiver havido administração recente de corticóide oral

QUADRO 13 – Agudização de asma grave

• Salbutamol e brometo de ipratrópio nebulizados ou em pMDI cada 20 minutos ou continuamente durante a 1ª hora
• Oxigenoterapia para manter saturação em O2 > 95%
• Corticóide sistémico oral

QUADRO 14 – Agudização emergente

• Entubação traqueal e ventilação mecânica com FiO2 a 100%
• Salbutamol e brometo de ipratrópio nebulizados
• Corticóide sistémico por via IV
• Eventuais terapêuticas adjuvantes
• Internamento em UCI

Excluindo os casos que requerem terapia intensiva e reportando-nos apenas às formas de agudização moderada ou grave, os Quadros 15 e 16 sintetizam os passos seguintes, o que pressupõe reavaliação clínica, verificação da saturação em O2, e eventualmente outros exames, cerca de 1 hora após a terapêutica descrita anteriormente.  

Mantendo-se os sintomas e sinais de agudização moderada, seguir-se-á o protocolo que integra o Quadro 15.

Ao cabo de 1-3 horas (Quadros 15 e 16) e ponderando cada caso de modo individualizado tendo em conta a verificação, ou não, de factores de risco (Quadro 17), o clínico poderá deparar essencialmente com três situações: 

  1. Boa resposta mantida (durante pelo menos 1 hora) após o último tratamento, traduzindo-se por ausência de dificuldade respiratória e bom estado geral. Em tal caso o doente poderá ter alta para o domicílio continuando tratamento com salbutamol nebulizado ou em pMDI e ciclo de corticóide oral, sob vigilância médica, com reavaliação ulterior mais pormenorizada dentro de 1-4 semanas.
  2. Resposta incompleta, não resposta e/ou agravamento com hipercápnia, obnubilação ou estado confusional, implicando internamento hospitalar e eventual terapia em UCI, com execução de medidas terapêuticas descritas nos Quadros 7, 8 ou 10.

QUADRO 15 – Agudização moderada mantida

• Salbutamol e brometo de ipratrópio nebulizados ou em pMDI cada 60 minutos
• Oxigenoterapia
• Corticóide sistémico por via oral
• Continuação do tratamento durante 1 a 3 horas e eventual decisão de internamento caso não se verifique melhoria após 3-4 horas

QUADRO 16 – Agudização grave associada a factores de risco (Quadro 17) e ausência de resposta ao tratamento inicial

• Salbutamol e brometo de ipratrópio nebulizado cada 60 minutos ou continuamente
• Oxigenoterapia
• Corticóide sistémico por via oral
• Eventuais terapêuticas adjuvantes
• Continuação do tratamento durante 1 a 3 horas e eventual decisão de internamento caso não se verifique melhoria após 3-4 horas

QUADRO 17 – Factores de risco/gravidade em contexto de episódio de asma

• Antecedentes de agudizações graves e súbitas e de internamento em UCI com ventilação mecânica
• Dois ou mais internamentos/ano, ou recurso ao SU, ou internamento no mês anterior
• Consumo de >2 embalagens/mês de beta-2 agonistas inalados
• Utilização, na data da exacerbação, de corticoides sistémicos ou sua interrupção recente
• Comorbilidade (por ex. doença cardiovascular, DPOC, etc)
• Doença psiquiátrica
• Estado de precariedade socioeconómica
• Residência em meio urbano
• Toxicodependência

B) Actuação em regime ambulatório ou no domicílio (controlo a longo prazo)

A alta para o domicílio após agudização asmática é uma decisão que deverá ser analisada caso a caso tendo em conta, designadamente, as características do quadro clínico durante o internamento e a existência de eventuais factores de risco. Uma das abordagens habituais de terapêutica a instituir inclui:

  • salbutamol associado ao brometo de ipratrópio (idealmente com câmara expansora/pMDI) (Quadros 8 e 11) durante 5-7 dias, e corticóide oral durante 3-5 dias (Quadro 10).
  • corticóides inalados (a longo prazo) a iniciar antes da saída do hospital, ou a sua retoma no caso de já constituir rotina no pré-internamento, ponderando-se a correcção de dose e a eventual inclusão de outros fármacos de controlo (Quadros 3 e 4).

NB – Se após 3 meses se obtiver controlo da situação, deverá proceder-se a redução gradual das doses, tentando as doses mínimas eficazes.

Relativamente às xantinas, cabe salientar que a sua utilização diminuiu significativamente, pois o seu efeito broncodilatador é pouco efectivo, não cumpre o objectivo de se obter efeito anti-inflamatório e a ocorrência de efeitos secundários pode ser significativa. 

Na abordagem inicial da asma ligeira, pouco sintomática, está largamente demonstrado que o grupo farmacológico que é mais benéfico no controlo clínico e funcional da doença corresponde aos corticóides inalados, sendo recomendados como tratamento de primeira linha em todos os grupos etários (equivalência de doses encontra-se representada no Quadro 9). A utilização de antileucotrienos orais pode também se considerada como opção inicial em monoterapia embora seja de esperar uma percentagem inferior de sucesso terapêutico.

Quando os sintomas não se controlam com doses baixas ou médias de corticóides inalados, tende-se actualmente para uma utilização combinada de fármacos, permitindo um melhor controlo da doença, com a utilização de doses inferiores de corticóides inalados, obtendo-se uma elevada eficácia sem ocorrência de efeitos adversos significativos (Quadros 4 e 5).

Em todos os degraus e grupos etários é fundamental considerar a aplicação de medidas educacionais e a existência de um plano de acção escrito, para além da minimização do efeito de factores de risco susceptíveis de prevenção e controlo de comorbilidades, como é o caso da aplicação de medidas de controlo ambiental (ex. alergénios, tabagismo), bem como aconselhamento sobre dieta e actividade física.

Conhecendo-se actualmente muito da fisiopatologia, será ideal que o tratamento anti-asmático actue sobre todos, ou pelo menos num grande número, dos componentes que estão envolvidos. É esta a base científica para o uso da terapêutica combinada nas formas de asma de mais difícil controlo; os diferentes agentes vão actuar a diferentes níveis, complementando a sua acção.

Se pensarmos em algumas das combinações possíveis na abordagem da criança asmática, devemos tentar posicioná-las de acordo com a gravidade do quadro clínico.

Em conclusão, no tratamento da asma brônquica persistente, quando não se obtém o controlo com monoterapia, nomeadamente com o recurso a corticóides inalados, é preferível usar a combinação de doses baixas de corticosteróide inalado e b2-agonistas de acção prolongada ou antileucotrienos do que aumentar para doses mais elevadas de corticosteróide inalado.

Entre as combinações corticosteróide inalado e b2-agonista de longa acção versus antagonista dos leucotrienos e corticosteróide inalado, a primeira revela-se mais eficaz e de menor custo. A combinação dos broncodilatadores mais efectivos com os anti-inflamatórios de primeira escolha na maioria dos asmáticos (corticóides inalados), resulta claramente numa formulação eficaz em todo o espectro da asma persistente moderada a grave, e ainda nas formas ligeiras quando o componente de esforço se revele significativo. Aspectos como adesão e deposição pulmonar serão determinantes para o efeito sinérgico.

Uma palavra de atenção deve ser dada quanto ao uso da terapêutica combinada no tratamento da asma persistente: falamos do controlo da função respiratória, dos sintomas crónicos e do eventual alívio de alguns sintomas agudos; como foi referido, o tratamento das agudizações asmáticas moderadas a graves, pressupõe o uso de outras abordagens terapêuticas, quer em ambulatório, quer a nível dos serviços de urgência.

Terapêutica inalatória

Constitui actualmente o pilar fundamental no tratamento de várias doenças respiratórias, sendo consensual a escolha da via inalatória como preferencial para administração de fármacos no tratamento da asma. Comparada com a via sistémica, tem uma acção mais rápida utilizando doses menores. Consegue-se efeitos terapêuticos muito significativos com escassos efeitos secundários. No entanto, em idade pediátrica o reduzido calibre da via aérea, os fluxos inspiratórios baixos, a respiração nasal, os volumes correntes pequenos, as frequências respiratórias elevadas e a colaboração, por vezes deficiente, entre muitos outros factores, condicionam frequentemente o sucesso da inaloterapia.

Durante uma agudização de sintomas, para além da idade, pode também estar comprometida a utilização de inaladores que fazem depender a disponibilidade das partículas do débito inspiratório.

Assim, para rendibilizar a extrema rapidez de actuação e a eficácia desta via de administração, particularmente durante a crise, é importante que se respeitem algumas condicionantes relacionadas, quer com a idade da criança, quer com os dispositivos disponíveis.

Idade da criança – nos primeiros dois ou três anos de vida, a terapêutica, broncodilatadora ou anti-inflamatória indicada por via inalatória na agudização, terá de ser efectuada através de nebulizador (pneumático ou ultrassónico) ou, preferencialmente, com aerossol de dose calibrada (pressurized Metered Dose Inhalers – pMDI) associado a câmara de expansão, sempre com o uso de máscara.

A partir do terceiro ano de vida, logo que a colaboração o permita, deverá a inalação ser efectuada com o uso de peça bucal, pois a inalação do fármaco através das cavidades nasais (ou apenas o facto de haver respiração nasal com a utilização de máscara), pode reduzir a dose que chega ao pulmão para menos de metade. Se for possível a colaboração com a peça bucal, há que preferir o uso de câmaras de expansão (nomeadamente a nível dos serviços de urgência e enfermaria).

A partir dos 6 anos, por vezes antes, é já possível a utilização dos inaladores de pó seco, uni ou multidose (Dry Power Inhaler – DPI), para o tratamento dos sintomas. No entanto, em crianças que estão familiarizadas com câmaras de expansão, pode manter-se esta metodologia de administração durante toda a idade escolar, particularmente no domicílio. Nos serviços de urgência hospitalares devem estas crianças efectuar terapêutica com inaladores do tipo pMDI associados a câmaras de expansão com peça bucal.

Tipos de dispositivos para aerossolização – Como foi referido, os aerossóis utilizados na terapêutica da asma são produzidos por três tipos básicos de instrumentos de inalação, nomeadamente os nebulizadores, os pMDI e os DPI.

Os nebulizadores são aparelhos geradores de aerossóis a partir de soluções ou suspensões aquosas.

Embora difíceis de transportar, são muitas vezes úteis quando os outros dispositivos estão indisponíveis e podem transformar em aerossol, virtualmente, qualquer substância líquida. Como foi referido, os nebulizadores podem ser alimentados por ar comprimido, ou ser ultrassónicos; neles deve considerar-se que a dose colocada no dispositivo, aparentemente elevada (carga do nebulizador) sofre perdas a vários níveis, nomeadamente a dose que permanece no nebulizador (“volume morto”- geralmente cerca de 0,5 ml), perdas através do terminal do tubo, impacte de partículas a nível interno e as perdas durante a expiração; nestes aparelhos a geração de partículas não depende dos fluxos inspiratórios. Para os pMDI a energia é dada pelo próprio dispositivo, enquanto para os DPI esta energia tem de ser fornecida pelo doente através de um fluxo inspiratório que retira o pó do dispositivo, tornando problemática a sua utilização em episódios sintomáticos, mesmo em crianças que com eles é realizada a sua terapêutica de controlo.

Na terapêutica da crise de asma nos serviços de urgência devem ser usados sobretudo os pneumáticos, mais baratos e permitindo o uso de um adaptador bucal ou máscara. O nebulizador pneumático pode ser, ou não, reutilizado. Os dispositivos ultrassónicos podem produzir partículas menores, são silenciosos e actualmente bastante portáteis, mas não trazem benefício clínico adicional; têm mesmo um risco acrescido de infecções nosocomiais.

Para nebulização de broncodilatadores podem ser utilizados indistintamente aparelhos pneumáticos ou ultrassónicos (soluções); para a nebulização de corticóides (fluticasona ou budesonido) os únicos aparelhos a utilizar são os pneumáticos (suspensões). Este factor poderá ser muito importante no caso de se recomendar a compra de um aparelho gerador de aerossóis.

O tempo ideal para uma nebulização será de 8 a 10 minutos (factor que condiciona o volume a nebulizar que deve ser colocado no dispositivo, pelo que não podem existir “receitas” universais, por exemplo, do volume de soro fisiológico a adicionar). A frequência das nebulizações poderá ser de 20/20 ou de 30/30 minutos.

A associação do inalador pressurizado com uma câmara de expansão, revela-se como um meio de eleição para a administração de terapêutica, quer na crise, quer como terapêutica de controlo, em idade pré-escolar. Aumenta a deposição no pulmão, diminui a deposição na boca e vias aéreas superiores à custa de uma maior deposição na câmara, sendo uma alternativa portátil à utilização dos nebulizadores, tal como na agudização da criança asmática observada no serviço de urgência. A respiração pode ser feita em volume corrente, durante cerca de 20 a 30 segundos, após cada pressurização (puff).

Nas crises e em ambulatório os DPI são habitualmente indicados nas crianças que já os utilizam quotidianamente (geralmente em crianças com 6 ou mais anos), não devendo ser utilizados a nível dos serviços de saúde no tratamento de crise, levantando óbvios problemas na reutilização (perigo de contaminação).

A principal vantagem em relação aos pMDI consiste no facto de não ser necessária a coordenação mão-pulmão, tornando a técnica mais fácil (embora o uso de pMDI isolados não seja habitualmente recomendada em idade pediátrica; a existência de dispositivos accionados pela manobra inspiratória, do tipo autohaler, ou MDI geradores de nuvens muito suaves, com partículas de pequena dimensão, poderá modificar esta conduta. Exigem uma inspiração forçada para uma boa deposição pulmonar, com um fluxo inspiratório relativamente alto (débito inspiratório superior a 30L/minuto) o que não é possível em crianças muito pequenas. São igualmente portáteis e discretos, não contendo propelentes (podem conter lactose). Permitem também um melhor controlo da quantidade do medicamento gasto e do restante.

Os dispositivos multidose são os mais utilizados por serem mais práticos. Menos usados, os sistemas unidose apresentam o medicamento em forma de pó, contido numa cápsula, que é perfurada ou partida antes da inalação. As principais vantagens em relação aos sistemas multidose serão um melhor controlo da dose, a verificação de que esta foi de facto retirada da cápsula e a possibilidade de repetir a inalação até desaparecimento total do pó. No entanto são menos práticos, e preferidos por uma minoria de doentes.

adesão à terapêutica é também um problema central, sendo necessário proceder à correcta administração do fármaco prescrito. Esta tarefa é dificultada quando estamos perante crianças difíceis, que choram durante a administração da terapêutica. É fundamental que os profissionais de saúde, os pais e as crianças compreendam a necessidade de utilizarem o fármaco prescrito e que aceitem o uso do dispositivo seleccionado para o efeito. As acções de formação devem ser iniciadas nos profissionais, terminando na própria criança, sempre que o grupo etário o permita.

Em ambulatório ou no serviço de urgência deverá ser efectuado o ensino da utilização dos diversos tipos de inaladores e reavaliada a técnica regularmente.

A escolha do método de inalação constitui uma etapa fundamental do tratamento das doenças respiratórias da criança; o ensino e avaliação da adequação só são possíveis com a colaboração de técnicos treinados e experientes.

Em síntese,

  1. para o tratamento das crises de asma no serviço de urgência é prática tradicional o recurso aos nebulizadores, de preferência devendo estes ser pneumáticos. O seu uso estendeu-se ao tratamento domiciliário, inclusive comparticipado pelo Serviço Nacional de Saúde;
  2. numerosos estudos têm vindo a demonstrar que as combinações pMDI / câmara expansora são preferíveis, sendo mais eficazes, mais portáteis e menos dispendiosos.
  3. deve ser incrementado o uso de câmara expansora nos serviços de urgência, na maioria das crianças com crise de asma, pelo menos como opção aos nebulizadores.
  4. nalguns lactentes e crianças em idade pré-escolar, a nebulização com máscara pode ser mais bem aceite, particularmente em situações mais graves, em que criança se encontra exausta, por vezes febril, não sendo de esperar então grande colaboração com a técnica requerida para uma câmara expansora (Quadro 18).

QUADRO 18 – Dispositivo inalatório para crianças até 5 anos

Idade

Dispositivo preferível

Dispositivo em alternativa

0-3 anos Inaladores pressurizados associados a câmaras expansoras com máscara Nebulizador com máscara (excepcional)
4-5 anos Inaladores pressurizados associados a câmaras expansoras com peça bucal -Inaladores pressurizados associados a câmaras expansoras com máscara
-Nebulizador com máscara ou peça bucal (excecional)

 

Asma induzida pelo exercício

A asma induzida pelo exercício (AIE), ou que também pode ser referida de um modo mais abrangente como broncoconstrição induzida pelo exercício, define-se como o aumento transitório da resistência das vias aéreas resultante da broncoconstrição que ocorre após esforço físico, inerente a prática desportiva, mas também facilmente desencadeável após situações tão comuns como rir ou chorar.

Os sintomas de AIE, semelhantes aos de outras formas da doença, podem incluir tosse, pieira, dispneia, opressão torácica ou cansaço que surgem durante e principalmente após cessar o exercício; estes sintomas são de curta duração e acompanham-se de hiperinsuflação e hipoxémia arterial. A broncoconstrição máxima ocorre geralmente 3-10 minutos após o esforço físico, sendo habitual uma recuperação espontânea num intervalo de 30-60 minutos.

FIGURA 3. Mecanismos etiopatogénicos na AIE

A prevalência de AIE é variável, podendo ocorrer em até 80% dos doentes asmáticos, em especial na idade pediátrica; é frequentemente causa de queixas e de frustração pelas dificuldades na integração das actividades de grupo, nomeadamente no meio escolar e desportivo.

A gravidade da resposta broncoconstritora ao exercício depende de vários factores, tais como da intensidade do exercício, das condições climáticas e da reactividade basal das vias aéreas. A magnitude da resposta dependerá do grau de controlo da doença, do uso prévio de medicação anti-asmática e do intervalo de tempo que decorreu desde um episódio anterior de broncoconstrição induzida pelo exercício, conceito conhecido como período refractário; em cerca de 50% dos asmáticos a resposta broncoconstritora ao exercício é atenuada se este for repetido em período até 30 minutos. A gravidade da AIE pode também ser indirecta e negativamente influenciada pela exposição a alguns factores, tais como alergénios, poluentes e infecções víricas.

As actividades desportivas consideradas como mais asmogénicas englobam os desportos que exigem altos níveis de ventilação, como a corrida de fundo, o ciclismo, o futebol, o basquetebol e o raguebi, e modalidades praticadas em ambiente frio e seco como vários desportos de Inverno, particularmente o esqui, o hóquei e a patinagem no gelo.

Relativamente à etiopatogénese, os mecanismos pelos quais a AIE ocorre não estão completamente esclarecidos. A desidratação da mucosa brônquica, consequência da hiperventilação que ocorre durante o exercício, constitui a explicação mais aceite. O mecanismo pelo qual esta perda de água pela mucosa desencadeia a broncoconstrição resulta provavelmente de uma conjugação de dois mecanismos anteriormente propostos como distintos: o estímulo térmico; e o estímulo osmótico (Figura 3). Os leucotrienos, potentes mediadores de broncoconstrição libertados por várias células inflamatórias incluindo mastócitos e eosinófilos, têm os seus níveis elevados após broncoconstrição induzida pelo exercício.

O objectivo primordial do tratamento é prevenir ou pelo menos atenuar a resposta broncoconstritora ao exercício de modo a que não constitua restrição à escolha de uma actividade física ou limitação ao nível de desempenho. Para tal, importa em primeiro lugar conseguir o melhor controlo possível da asma.

Medidas não farmacológicas como mudar as condições do ar inalado, quando a actividade ocorre em espaços fechados, evitar fazer exercício em ambientes frios e secos, limitar a exposição a poluentes, têm-se revelado benéficas. É igualmente importante fazer um adequado período de aquecimento antes da realização de esforço físico mais intenso.

Vários fármacos têm sido propostos no controlo da AIE. Na maioria dos casos que têm uma função respiratória basal normal a AIE pode ser prevenida pela administração prévia ao exercício de um agonista b2-adrenérgico por via inalatória (exs. salbutamol ou terbutalina), eficaz em reduzir a AIE em até 90% dos doentes, independentemente da gravidade, podendo também ser usados como medicação em SOS para tratar a broncoconstrição desencadeada pelo esforço. Esta abordagem exige uma atempada previsão das horas de maior esforço, sabendo-se que em idade pediátrica o exercício constitui um acontecimento imprevisível, pelo que se torna mais difícil de controlar a AIE na criança. Os broncodilatadores b2-adrenérgicos de acção prolongada (ex. formoterol, salmeterol e vilanterol) têm então indicação óbvia uma vez que exercem o seu efeito protector de forma mais duradoura, entre de 12 a 24 horas. A associação destes fármacos com corticosteróides inalados é sempre obrigatória. As terapêuticas combinadas num só dispositivo (fluticasona com formoterol, salmeterol ou vilanterol e budesonido com formoterol) simplificam a terapêutica permitindo uma maior adesão.

Os antagonistas dos receptores dos leucotrienos (ex. montelucaste) oferecem em formas ligeiras de asma de esforço, para além da comodidade posológica, protecção efectiva de sintomas ao longo das 24 horas, não parecendo este efeito reduzir-se com a sua toma regular.

Dada a elevada incidência de AIE em atletas de competição, incluindo a nível olímpico, e consequente necessidade de uso de medicação anti-asmática, o Comité Olímpico Internacional (COI) aceita o uso de agonistas b2-adrenérgicos, de curta e longa acção, corticóides por via inalatória e antagonistas dos receptores dos leucotrienos. Para que a medicação anti-asmática prescrita não seja considerada dopante, nomeadamente em competições internacionais, é necessária a comprovação com uma notificação escrita, em impresso próprio fornecido pelo Conselho Nacional Antidopagem (CNAD), acompanhada de relatório médico incluindo resultados de provas funcionais respiratórias, comprovando o diagnóstico de asma e a consequente indicação terapêutica.

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ASPECTOS DO DIAGNÓSTICO DA DOENÇA ALÉRGICA

Aspectos básicos de imunopatogénese

O papel fundamental do sistema imune é proteger o organismo (hospedeiro) contra agentes patogénicos microbianos e, ao mesmo tempo, manter a tolerância de antigénios (do próprio organismo e exógenos) considerados não agressivos ou “inofensivos”. A falência quantitativa e/ou funcional dos mecanismos de defesa implica uma sensibilidade aumentada a infecções, ao passo que a alteração dos mecanismos de tolerância resulta em alergia ou autoimunidade.

Ao nível celular as células dendríticas e os linfócitos T desempenham um papel crucial na homeostase imune. A este respeito salienta-se a diferenciação das células T nativas em vários subtipos (Th ou T helper): Th1, Th2, Th17 e células T reguladoras (Treg).

As células Th1, produzindo interferão gama, e tendo papel importante de cooperação na produção de anticorpos IgG, são essenciais na defesa contra agentes patogénicos intracelulares (vírus e bactérias). As células Th2, produzindo interleucinas (IL)-4 e IL-13, essenciais para a produção de IgE pelas células B, têm papel crucial na defesa contra infecções parasitárias. As células Th17, em associação a IL-17, desempenham papel importante na mobilização dos neutrófilos, sendo essenciais contra certos agentes patogénicos, nomeadamente fungos.

Quanto às células Treg, as mesmas desempenham um papel fundamental na modulação da resposta imune e na manutenção da homeostasia, por controlo da resposta das restantes populações de células T helper. As células Treg podem actuar por contacto directo célula a célula ou pela produção de IL-10 e TFG-β (transforming growth factor).

Recentemente tem sido descrito o papel de células B, para as quais se reconhecem também subpopulações de função reguladora, abandonando-se a ideia de serem células apenas envolvidas na produção de anticorpos.

A doença alérgica pode ser mediada pela produção de anticorpos IgE, sendo designada por doença IgE mediada, ou pode surgir sem a sua intervenção, sendo designada por doença não IgE mediada, sendo estas reacções resultantes da activação de populações celulares T helper ou por vezes T citotóxicas. Actualmente define-se atopia como a tendência, pessoal e/ou familiar, para a produção de anticorpos IgE dirigida contra aeroalergénios comuns.

Anamnese

O diagnóstico da doença alérgica baseia-se essencialmente na história clínica. A anamnese é fundamental e deve esclarecer: a idade de início dos sintomas e circunstâncias do seu aparecimento; a presença de factores desencadeantes, tais como esforço físico, exposição a alergénios (ácaros do pó, pólenes, fungos, epitélios de animais, látex, entre outros) ou ingestão de alimentos ou fármacos. É importante avaliar a frequência, a duração e a gravidade dos sintomas, incluindo recurso ao serviço de urgência e eventual internamento, e a resposta à terapêutica instituída, assim como a variabilidade circadiana e sazonal dos sintomas.

A avaliação do contexto ambiental em que a criança vive é fundamental, particularmente em termos de exposição alergénica (pó, animais domésticos, pólenes mais frequentes na zona de residência) e exposição a tabagismo passivo e outros poluentes ambientais, em ambiente doméstico ou fora de casa.

As doenças alérgicas têm um reconhecido impacte negativo sobre a qualidade de vida da criança e dos seus prestadores de cuidados; tal impacte deve ser pesquisado em cada caso, nomeadamente sobre tolerância ao exercício e interferência nas actividades do quotidiano, períodos de interrupção do sono, perturbação de afectos familiares e sociais, e grau de absentismo escolar.

Os antecedentes pessoais da criança, nomeadamente a coexistência de outras doenças alérgicas e os antecedentes familiares de alergia apoiam o diagnóstico de doença alérgica.

A sensibilização precoce na criança, por via digestiva ou inalatória, desencadeia o início da chamada marcha alérgica. Segundo este conceito clássico, a expressão clínica da atopia varia durante a vida, iniciando-se na primeira infância sob a forma de alergia alimentar e eczema atópico, com evolução ulterior, variável segundo a experiência de vários autores, para alergia respiratória, rinite e asma.

Algumas particularidades clínicas das doenças alérgicas mais prevalentes na criança serão em seguida sucintamente referidas, como complemento do que foi descrito no capítulo anterior.

Asma: entidade clínica caracterizada por episódios recorrentes de tosse, pieira e dificuldade respiratória, parcial ou completamente reversíveis, espontaneamente ou após terapêutica com broncodilatador; em algumas crianças, queixas induzidas pelo exercício físico ou tosse crónica podem ocorrer isoladamente. Apoiam o diagnóstico, a periodicidade dos sintomas, a sintomatologia nocturna, o agravamento com esforço físico, ar frio e exposição a alergénios, bem como a resposta favorável à terapêutica broncodilatadora. Frequentemente documenta-se história familiar de asma parental e história pessoal de rinite e eczema atópico.

De acordo com a definição do Grupo GINA – Global Initiative for Asthma), é uma doença inflamatória crónica das vias aéreas na qual intervêm muitas células particularmente mastócitos, eosinófilos e células T. Nos indivíduos susceptíveis esta inflamação provoca episódios recorrentes de pieira, dispneia, retracção torácica e tosse, os quais podem ser parcial ou totalmente reversíveis, espontaneamente ou por tratamento. A asma alérgica é mediada por mecanismos imunológicos, particularmente IgE, ao contrário da asma não alérgica.

Rinite alérgica: os sintomas incluem rinorreia serosa, prurido nasal, espirros paroxísticos e obstrução nasal (como aspecto característico na ausência de processos infecciosos). A coexistência de sintomas oculares alérgicos (prurido ocular, hiperémia conjuntival, lacrimejo) apoia fortemente este diagnóstico. A variabilidade sazonal, bem como a relação com a exposição alergénica com agravamento no ambiente fora de casa é característica das polinoses.

Eczema atópico: surge, habitualmente, após os 3 meses de vida e caracteriza-se pelo prurido cutâneo intenso, que tipicamente se agrava após o banho, com a sudação e durante a noite, e pela distribuição e morfologia típica das lesões cutâneas, com evolução crónico-recidivante.

Alergia alimentar / medicamentosa: associação entre a ingestão de alimentos / fármacos e o aparecimento dos sintomas, de forma reprodutível após exposição. A forma de manifestação clínica mais frequente é mucocutânea, com urticária e angioedema; no entanto, reacções anafilácticas graves podem ocorrer.

Os alimentos mais frequentemente implicados em idade pediátrica no nosso país são o leite, o ovo e o peixe; o trigo, o amendoim, os frutos secos, os frutos frescos e o marisco são também importantes. Contudo, qualquer alimento pode estar envolvido, incluindo produtos muitas vezes encarados pelos pais / prestadores de cuidados como inofensivos, como é o caso de alguns tipos de fórmulas lácteas, ou produtos contaminados por alergénios alimentares ocultos, cujos vestígios podem passar despercebidos.

Em relação aos fármacos, em idade pediátrica, destacam-se os antibióticos, particularmente beta-lactâmicos, e os anti-inflamatórios não esteróides.

Exame físico

O carácter intermitente das doenças alérgicas, de um modo geral, determina que na maioria das vezes o exame físico da criança seja normal. Alguns sinais e sintomas característicos, podendo ser detectados ao realizar o exame físico, e descritos de modo sucinto neste capítulo, integram entidades clínicas bem individualizadas, sendo abordados ulteriormente de modo mais pormenorizado noutros capítulos.

Asma: durante uma exacerbação pode verificar-se taquipneia, utilização dos músculos acessórios da respiração, hiperinsuflação torácica, prolongamento do tempo expiratório e sibilos na auscultação pulmonar; situações mais graves podem cursar com cianose, diminuição generalizada do murmúrio vesicular e alterações do estado de consciência.

Rinite alérgica: fácies característica da criança com obstrução nasal crónica, com respiração oral com boca entreaberta, existência de prega atópica nasal e olheiras; a observação das fossas nasais permite-nos visualizar habitualmente, para além da rinorreia aquosa, hipertrofia e palidez da mucosa dos cornetos inferiores (ver adiante).

Conjuntivite alérgica: são aspectos característicos a hiperémia e a quemose (edema) conjuntivais, secreção serosa e frequentemente edema palpebral, habitualmente bilateral; a observação da conjuntiva tarsal pode evidenciar a presença de papilas.

Rinoconjuntivite: situação em que há sintomas de reacção de hipersensibilidade mediada imunologicamente com tradução clínica nas fossas nasais e conjuntiva, na maioria das vezes mediada por IgE.

Urticária e angioedema e anafilaxia: com uma base fisiopatológica comum, estas situações são abordadas com mais pormenor no capítulo dedicado à alergia de expressão cutânea.

Exames complementares de diagnóstico in vivo

Testes cutâneos

Os testes cutâneos por picada ou “prick” constituem o método diagnóstico de eleição para avaliação da presença de sensibilização alergénica, inclusive em idade pediátrica, pela facilidade de execução, rapidez de obtenção de resultados, segurança, baixo custo e elevada sensibilidade. No entanto, contrastando com a facilidade de execução, estes testes podem ser influenciados por diversos factores, pelo que é imprescindível que a sua interpretação seja efectuada por especialista e que sejam realizados com uma metodologia correcta, obedecendo a normas padronizadas.

A utilização dos testes cutâneos por picada permite a identificação, se existente, do alergénio sensibilizante. A introdução do alergénio na camada superficial da pele leva ao aparecimento de uma reacção imediata, dependente da desgranulação dos mastócitos e envolvendo também factores neurogénicos, com libertação de histamina e outros mediadores originando uma resposta de pápula e eritema. Esta resposta visível é máxima aos 15 minutos, regredindo habitualmente aos 30 minutos.

Os testes cutâneos podem ser influenciados por uma série de variáveis, que podem determinar os resultados e condicionar a precisão dos mesmos, tais como: factores técnicos, factores biológicos e factores externos não alérgicos. Os factores técnicos estão relacionados com a preparação do alergénio (potência, qualidade, composição e estabilidade) e com a metodologia do teste. Os factores externos não alérgicos incluem fármacos, como anti-histamínicos, e condições patológicas intercorrentes, como neoplasias, infecções e exacerbação de eczema, que podem inibir a reactividade cutânea. Os factores biológicos incluem a idade do indivíduo e a variação sazonal relacionada com a exposição alergénica.

A selecção dos extractos alergénicos a utilizar deve estar de acordo com a história clínica e a frequência de sensibilizações alergénicas na população. Na nossa população os alergénios mais importantes são os ácaros do pó (Dermatophagoides pteronysinus, Dermatophagoides farinae e Lepidoglyphus destructor). Outros aeroalergénios comuns poderão estar implicados, nomeadamente pólenes de gramíneas, parietária / outras herbáceas e de árvores localmente relevantes, animais, particularmente gato, cão, baratas e fungos (Alternaria, Arpergillus e Cladosporium).

Podem ainda ser incluídos outros testes segundo a localização geográfica ou em presença de dados particulares fornecidos pela história clínica. Habitualmente, através da utilização de um número limitado de aeroalergénios comuns é possível confirmar ou excluir a presença de atopia. A evidência de sensibilização alergénica foi identificada em vários estudos prospectivos como factor de risco de persistência da sintomatologia respiratória, isto é, de asma activa em idade escolar, com elevado valor preditivo positivo, com valor diagnóstico e prognóstico da asma na criança.

Assim, o factor etário não deve ser um factor limitante para a execução dos testes cutâneos na criança, devendo, pelo contrário, ser considerados como rotina na investigação de atopia. Os testes cutâneos por picada negativos permitem excluir a presença de atopia e, deste modo, evitar a utilização de medidas de evicção de alergénios não apropriadas. Apesar de identificarem a sensibilização a determinado alergénio, os testes cutâneos não permitem avaliar a sua relevância clínica se valorizados independentemente da história clínica. A presença de testes cutâneos positivos em pacientes assintomáticos pode ser factor de risco de início de sintomatologia alérgica, mas não identificam, por si só, doença. Ou seja, os conceitos de sensibilização alergénica, ou atopia, e doença alérgica são distintos e independentes. No entanto, na presença de clínica sugestiva, a relação entre os testes cutâneos por picada positivos e as provas de provocação específicas é altamente significativa. Os testes cutâneos com painel de aeroalergénios é fundamental para a avaliação do doente com alergia respiratória, asma e/ou rinite, ou alergia ocular.

Na alergia alimentar os testes cutâneos devem ser realizados com os alergénios alimentares identificados como suspeitos pela história clínica. Os alergénios alimentares mais frequentemente implicados variam com a população e a região geográfica estudada. Na nossa população, em idade pediátrica, o leite e o ovo são os mais importantes, seguidos do peixe, trigo, amendoim e frutos secos. Os referidos testes apresentam um excelente valor preditivo negativo, mas menor valor preditivo positivo, pelo que, exceptuando os casos em que haja uma íntima associação entre a ingestão do alimento e o aparecimento das queixas ou uma reacção anafiláctica grave, a positividade dos mesmos apenas serve para seleccionar os alimentos com os quais deverão ser efectuadas provas de provocação. A utilização de testes cutâneos com o alimento na forma natural pode ser necessária em algumas situações, particularmente na suspeita de alergia a frutos frescos, legumes e marisco, quando persistir a suspeita clínica, e o extracto comercial não estiver disponível ou for negativo.

Os testes cutâneos intradérmicos são mais invasivos, e menos específicos; de salientar o risco de ocorrência de reacções adversas graves durante a sua execução, o que contra-indica a sua utilização por rotina e em centros não especializados. A sua utilização deve ser reservada a situações para avaliação de alergia medicamentosa, como na suspeita de alergia à penicilina, e alergia a veneno de himenópteros, nomeadamente abelha e vespa. Estes testes apresentam um elevado valor preditivo negativo, ou seja, quando negativos permitem excluir a presença de sensibilização IgE mediada, na grande maioria dos doentes.

Caso não seja possível a realização dos testes cutâneos, esteja limitada a sua interpretação por existência de dermografismo, de diminuição da reactividade cutânea, ou seja, necessário o esclarecimento de casos discordantes ou duvidosos, deverá ser efectuada a determinação sérica de IgE específicas. No entanto, salienta-se, a menor sensibilidade diagnóstica e o custo mais elevado dos testes in vitro (Quadro 1).

QUADRO 1 – Testes cutâneos por picada e testes séricos de IgE específica: vantagens

Testes cutâneos (in vivo) Testes séricos de IgE específica (in vitro)
Económicos Independentes da interferência de fármacos que inibem a reactividade cutânea
Resultados imediatos Não influenciados por dermografismo ou doenças cutâneas
Valor educacional Totalmente seguros
Maior sensibilidade Maior especificidade

Exames complementares in vivo em situações específicas

Asma

A realização de provas de função respiratória é fundamental para confirmar o diagnóstico, para seguimento e monitorização terapêutica e para avaliação de casos de apresentação atípica. As mesmas permitem quantificar as repercussões funcionais ao nível das vias aéreas.

Existe uma panóplia de provas de função respiratória disponíveis; as mais comummente utilizadas na prática clínica são a espirometria e a pletismografiacorporal. A espirometria, incluindo a realizada em idade pré-escolar, avalia a existência e grau de obstrução brônquica, bem como a sua reversibilidade após inalação de broncodilatador; deve ser o exame de primeira linha. A pletismografia corporal permite a determinação da resistência das vias aéreas e dos volumes pulmonares, avaliando o grau de insuflação pulmonar, só sendo possível efectuar a partir da idade escolar. Em idade pré-escolar apenas é possível quantificar a resistência específica das vias aéreas (as crianças não toleram o encerramento da válvula do pneumotacógrafo, sendo impossível medir volumes estáticos); valores elevados são preditivos de asma.

Provas de provocação brônquica: no período intercrítico, a avaliação funcional respiratória da criança asmática apresenta-se frequentemente dentro de parâmetros de normalidade e, muitas vezes, para confirmar o diagnóstico de asma, há que recorrer a provas de broncomotricidade, as quais podem ser broncodilatadoras ou broncoconstritoras.

prova de broncodilatação é habitualmente efectuada no decurso do estudo da função respiratória, por espirometria ou pletismografia corporal. Nesta prova avalia-se o grau de reversibilidade, 15 minutos após inalação de um β2-agonista de curta acção. Considera-se a prova positiva quando há um aumento do FEV1 (volume expiratório máximo no primeiro segundo) de ≥ 12% e ≥ 200mL em relação ao valor basal. A existência de uma prova positiva permite confirmar o diagnóstico clínico de asma.

Em doentes com sintomatologia atípica, quando os parâmetros funcionais são normais, para demonstrar a existência de hiperreactividade brônquica, recorre-se a provas broncoconstritoras.

prova de esforço é particularmente importante, pela fácil exequibilidade e por apresentar uma elevada especificidade para o diagnóstico de asma, nomeadamente na criança, permitindo se positiva (ou seja, quando ocorre uma redução do FEV1 ≥ 10% após a realização do esforço normalizado) confirmar o diagnóstico.

prova da metacolina apresenta uma baixa especificidade, sendo positiva em várias situações que apresentam hiperreactividade brônquica tais como fibrose quística, bronquiectasias, insuficiência cardíaca e infecções víricas. Salienta-se, no entanto, o seu elevado valor preditivo negativo. Esta prova considera-se positiva quando ocorre uma redução do FEV1 ≥ 20%. Outras provas de provocação avaliam a hiperreactividade brônquica a estímulos como a água destilada, soluções hiperosmolares como o manitol e hiperventilação de ar seco e frio. A prova de provocação brônquica com alergénio não é habitualmente utilizada, excepto em estudos de investigação; só deve ser efectuada em circunstâncias especiais e em ambiente hospitalar, pois desencadeia uma resposta imunológica imediata e tardia, com riscos acrescidos.

A asma brônquica é uma doença inflamatória crónica. Partindo desta premissa, existem técnicas que avaliam o grau de inflamação, tais como óxido nítrico, análise do esputo induzido e condensados exalados, e até mesmo estudos mais elaborados de metabolómica. De entre estes, a avaliação do óxido nítrico é a única utilizada na prática clínica, pela sua fácil execução e interpretação, estando os valores elevados de óxido nítrico associados a uma boa resposta à terapêutica anti-inflamatória com corticosteróides inalados.

Rinite alérgica

Em situações de rinite de difícil controlo sintomático, como critério de exclusão, poder-se-á complementar a avaliação por endoscopia nasal, no diagnóstico diferencial das causas de obstrução nasal fixa; e por estudo imagiológico, nomeadamente tomografia computorizada das fossas nasais e seios perinasais nas formas de rinossinusite de difícil tratamento médico. Actualmente considera-se não existir utilidade da radiografia dos seios perinasais.

Em alguns casos podem realizar-se provas de provocação específicas, nomeadamente nasais e conjuntivais, com o alergénio suspeito, mas habitualmente a sua utilização é limitada a estudos de investigação. De igual modo, podem ser realizadas rinomanometrias de modo a avaliar, pontualmente nos casos refratários à terapêutica ou em investigação, a permeabilidade das fossas nasais.

Eczema atópico

Em algumas situações, nomeadamente no caso de haver suspeita de dermatite de contacto, poderá efectuar-se a realização de testes epicutâneos (testes empregando adesivo ou patch). Nos casos em que a suspeita de alergia alimentar é pertinente, deve proceder-se a dietas de exclusão e a provas de provocação oral para excluir ou confirmar o diagnóstico.

Alergia Alimentar / Medicamentosa

Provas de provocação oral com alimentos / fármacos: são administradas por via oral doses crescentes do alergénio suspeito em intervalos regulares, até ao aparecimento de reacção, ou até ser atingida uma dose cumulativa correspondente à quantidade ingerida habitualmente numa refeição, ou à dose terapêutica diária, consoante se trate de prova de provocação alimentar ou medicamentosa. Na criança, habitualmente, são realizadas segundo um protocolo aberto; no entanto, em determinadas situações, nomeadamente se as queixas referidas forem subjectivas, poderá justificar-se a utilização de protocolo com ocultação. Estas provas são utilizadas para confirmação ou exclusão do diagnóstico de alergia alimentar ou medicamentosa. Estes procedimentos só devem ser realizados em ambiente hospitalar, geralmente em regime de hospital-de-dia, tendo disponíveis os meios terapêuticos necessários para a eventualidade de reacção sistémica, com a supervisão de especialistas experientes nesta área.

Na abordagem da alergia alimentar em idade pediátrica, habitualmente transitória, as provas de provocação, para além da finalidade diagnóstica, são imprescindíveis para determinar o momento em que se obtém a tolerância ao alimento; neste caso, a calendarização das provas deve ser feita tendo em conta o quadro clínico apresentado, o conhecimento existente sobre a história natural da sensibilização ao alimento implicado, e a evolução dos níveis de IgE específica sérica.

Alergia ao látex

Pode ser efectuada, em casos seleccionados, prova de provocação por contacto quando exista dúvida clínica, para distinguir entre existência de sensibilização assintomática e alergia ao látex. A prova mais utilizada é o teste de uso com luva de látex. Esta prova acompanha-se de risco de reacção sistémica.

Urticária ao frio

O teste do cubo de gelo é realizado pela aplicação do estímulo frio (0 a 4ºC) na face anterior do antebraço por um tempo sequencial que pode ir de 3 até 20 minutos de estimulação, até obtenção da resposta positiva (pápula). Esta prova acompanha-se de risco de reacção sistémica.

Exames complementares de diagnóstico in vitro

IgE total

O doseamento da IgE total sérica é um teste de baixa especificidade e sensibilidade no diagnóstico da doença alérgica. Para a generalidade dos autores, e de acordo com estudos efectuados em pares de gémeos, a síntese de IgE total terá um determinismo essencialmente genético; a síntese de IgE específica será fundamentalmente influenciada pela exposição ambiental. Apesar de intimamente relacionada com a doença alérgica, a determinação da IgE total sérica tem um interesse relativo quando avaliada isoladamente, podendo estar elevada por várias razões, nomeadamente nas parasitoses, na aspergilose pulmonar, na síndroma hiper-IgE ou associada ao tabagismo.

A concentração de IgE total varia com a idade. É um teste de baixo custo e rápido. No entanto, o facto de uma determinação de IgE total evidenciar valores normais não significa que não haja aumento de alguma IgE específica nem que seja excluída doença alérgica. Alguns estudos prospectivos têm documentado para este teste, um maior valor prognóstico do que diagnóstico, nomeadamente na criança asmática.

Os níveis de IgE total no cordão umbilical foram propostos e utilizados como factor preditivo da ocorrência de doença alérgica. Este entusiasmo inicial não foi, no entanto, apoiado por estudos mais recentes, revelando-se um método pouco sensível; por outro lado não permite também prever o tipo de doença alérgica.

IgE específica

A identificação do alergénio suspeito, para além de poder ser efectuada pelos testes cutâneos (in vivo), pode também ser efectuada por métodos in vitro, que permitem determinar as concentrações de IgE específica para um determinado alergénio (Quadro 2).

A presença de IgE específica para um alergénio, por si só, não pode ser usada para o diagnóstico de doença mediada por IgE porque a verificação de IgE específica sérica não significa que a criança seja necessariamente alérgica, podendo traduzir uma sensibilização assintomática. A situação deve ser sempre interpretada em conjunção com a história clínica.

A IgE específica não é um bom método de rastreio, sendo os respectivos custos muito elevados. O doseamento de IgE específicas séricas deveria estar reservado para uma avaliação mais diferenciada, tendo em conta a história clínica e o resultado dos testes cutâneos. Esta determinação é extremamente importante em determinadas situações (Quadro 3), nomeadamente: na monitorização de imunoterapia específica; na alergia alimentar, para controlo do correcto cumprimento da dieta e para avaliar o grau de tolerância, diminuindo o risco de provas de provocação positivas; e na suspeita de alergia a veneno de himenópteros e penicilina, alergénios com risco acrescido na realização dos testes cutâneos (intradérmicos).

Os alergénios também se têm desenvolvido quer em variedade, quer em qualidade, de modo a limitar a ocorrência de perda de constituintes essenciais durante o processo de fabrico, sendo os alergénios recombinantes um bom exemplo desta evolução.

QUADRO 2 – Resultados quantitativos e qualitativos de IgE específica

Resultados quantitativos (kU/L) Resultados semi-quantitativos (classes) Resultados qualitativos
< 0,35 0 Ausente ou indetectável
0,35 a 0,70 1 Baixo
0,71 a 3,50 2 Moderado
3,51 a 17,50 3 Alto
17,51 a 50,0 4 Muito alto
50,01 a 100 5 Muito alto
> 100 6 Muito alto

QUADRO 3 – Testes séricos de IgE específica (in vitro)

· Dermografismo ou doenças cutâneas, com limitação na interpretação dos testes cutâneos
· Testes cutâneos duvidosos ou negativos com forte suspeita clínica
· Alergénios com risco da realização de testes cutâneos (intradérmicos)
· Avaliação de resultados da evicção alergénica / Controlo do grau de evicção do alergénio
· Avaliação do grau de tolerância / Decisão de realização de provas de provocação
· Monitorização da imunoterapia específica

Painéis de alergénios múltiplos

São testes de rastreio, constituídos por uma mistura de vários alergénios definida pelo fabricante. Existem painéis para alergénios inalantes, como o Phadiatop® (mistura de aeroalergénios comuns, incluindo ácaros, pólenes, fungos e epitélios de gato e cão) e painéis para alergénios alimentares, do qual o mais utilizado na criança é o Fx5® (que inclui leite de vaca, clara de ovo, bacalhau, trigo, amendoim e soja) da Thermo Fisher Scientific. Tendo em conta os valores de sensibilidade, especificidade e valor preditivo negativo, consideramos estes testes bons métodos de rastreio, podendo ser utilizados em consultas não especializadas. Os mesmos proporcionam uma informação global, qualitativa, em termos de resultado positivo ou negativo.

Detecção múltipla de IgE específicas – tecnologia microarray

Mais recentemente surgiu a possibilidade de avaliar simultaneamente numa mesma amostra de sangue a presença de anticorpos IgE para um painel fixo de 112 componentes de 51 fontes alergénicas diferentes, na sua forma nativa ou recombinante, através do ImmunoCAP ISAC® (Thermo Fisher Scientific) utilizando a técnica de microarray em alergologia molecular.

O ImmunoCAP ISAC® é a primeira ferramenta de diagnóstico in vitro multiplex que se baseia exclusivamente em componentes alergénicos. Permite, usando uma quantidade mínima de soro, identificar os componentes alergénicos para os quais o doente está sensibilizado, e determinar reactividades cruzadas potenciais com base em epítopos homólogos.

Salienta-se que estão disponíveis no mercado alguns testes, designados de intolerância alimentar, que são publicitados erradamente como úteis para o diagnóstico de alergia alimentar. Estes ensaios baseiam-se na quantificação de anticorpos IgG dirigidos para alimentos e não têm qualquer validade para o diagnóstico de alergia alimentar. De facto, a Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica e a Academia Europeia de Alergologia e Imunologia Clínica já emanaram comunicados que salientam a inutilidade destes ensaios.

Marcadores de inflamação

A introdução de novas tecnologias permitiu o desenvolvimento de métodos para avaliação da libertação de mediadores produzidos pelas células intervenientes na inflamação alérgica, incluindo: ECP (proteína catiónica dos eosinófilos); triptase sérica; TAB (teste de activação de basófilos); CAST (teste celular de estimulação antigénica); formas solúveis de moléculas de adesão como ICAM-1 e VCAM-1; citocinas de perfil Th2 como IL-4 e IL-13. O estudo de mediadores e da sua determinação como marcadores de inflamação constitui um dos campos florescentes da investigação imunoalergológica. A sua utilização é habitualmente restrita a estudos de investigação, sendo potenciais instrumentos para o diagnóstico, monitorização e prognóstico das doenças alérgicas.

Pela sua importância em termos clínicos, salienta-se a determinação da triptase sérica. A triptase pode confirmar o diagnóstico de anafilaxia, pelo que o seu doseamento terá importância no serviço de urgência, durante a reanimação ou mesmo no estudo de casos fatais. A sua utilização poderá ainda ter interesse na monitorização de provas de provocação. Deve salientar-se, porém, que o seu aumento pode estar associado a mastocitose sistémica ou a doenças hematológicas, e que um doseamento de triptase sérica normal não excluiu o diagnóstico de anafilaxia.

No domínio da investigação da alergia medicamentosa e alimentar têm sido publicados vários estudos que demonstram a importância do TAB para a avaliação de reacções alérgicas a fármacos e alimentos, não mediadas por IgE, mas sim mediadas por células, permitindo em alguns casos obviar a realização de provas de provocação.

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DOENÇAS ALÉRGICAS NA CRIANÇA – EPIDEMIOLOGIA E PREVENÇÃO

Importância do problema

As doenças alérgicas correspondem a um tipo de patologia que, pela sua frequência e importância, estão na primeira linha no grupo etário pediátrico.

Cerca de 35% da população europeia apresenta sintomas alérgicos e a tendência é para o seu aumento, fruto do estilo de vida que caracteriza as populações dos países industrializados.

É importante referir o efeito das reacções alérgicas no comportamento emocional e social dos doentes e suas famílias.

Nomenclatura

Actualmente existe uma nomenclatura internacionalmente aceite e publicada pela European Academy of Allergology and Clinical Immunology recentemente actualizada pela World Allergy Organization que permite definir com rigor o significado dos termos e patologias mais frequentemente ligados à alergia. Discrimina-se seguidamente o significado de alguns termos relacionados com esta problemática; algumas situações são definidas com mais pormenor noutros capítulos desta Parte XII.

Alergia – É uma reacção de hipersensibilidade iniciada por mecanismos imunológicos a qual pode ser mediada por anticorpos ou células, sendo na grande maioria dos casos o anticorpo responsável pela reacção alérgica pertencente ao isotipo IgE.

Os indíviduos afectados podem ser referidos como sofrendo de uma alergia mediada por IgE.

Alergénios – São antigénios que causam alergia. Muitos dos alergénios que reagem com IgE e IgG são proteínas. A exposição a antigénios ambientais ocorre por inalação, ingestão, contacto cutâneo ou por via parentérica.

Sensibilização – Este termocom significado diferente de alergia, traduz o aparecimento de anticorpos IgE específicos para determinado alergénio no soro; isto é, o indivíduo fica sensibilizado ao referido antigénio, não significando que é alérgico a este. Quando um indivíduo é clinicamente alérgico, os anticorpos IgE ligam-se a recptores à superfície dos mastócitos de modo que a exposição a alergénios leva a activação destes com libertação de mediadores (histamina, prostaglandinas, leucotrienos, etc.),e a sintomas (reacção alérgica IgE mediada).

Atopia – É um estado constitucional devido a desregulação imunitária ou uma tendência pessoal ou familiar frequente na infância e na adolescência para se ficar sensibilizado e produzir IgE em resposta a uma exposição a grande variedade de alergénios. Como consequência, nestes individuos podem desenvolver-se sintomas característicos de asma, rinoconjuntivite e eczema. Os termos “atopia” e “atópico” devem ser reservados para descrever uma predisposição genética (genes indutores) para sensibilização a alergénios comuns durante uma exposição ambiental sendo que, na maioria dos individuos, não se produz uma resposta prolongada mediada por IgE.

Eczema – Palavra derivada do grego (fervura), constitui tipo de inflamação cutânea com características clínicas e histopatológicas expressivas. Os termos eczema e dermite (ou dermatite) são utilizados muitas vezes como sinónimos embora, em rigor, dermite designe qualquer fenómeno inflamatório da pele, do qual eczema constitui padrão particular. O que distingue o eczema como tipo particular de dermite são as suas características clínicas e histopatológicas. No que respeita ás primeiras, no eczema destaca-se o prurido e a erupção eritematovesiculosa na fase aguda, e a liquenificação na fase crónica. Associando este tipo de inflamação à palavra atopia, nesta obra consideram-se sinónimos os termos dermite/dermatite atópica e eczema atópico.

Hipersensibilidade – Corresponde a um conjunto de sinais ou sintomas(reacções adversas) objectivamente reprodutíveis e desencadeados pela exposição a um estímulo definido tolerado pelos indivíduos ditos normais ou saudáveis.

Hipersensibilidade não alérgica – É o termo preferido para descrever reacção adversa ou hipersensibilidade na qual não é possível demonstrar a presença de mecanismos imunológicos.

De acordo com a classificação de Gell e Coombs são descritos os seguintes tipos clássicos de hipersensibilidade: Tipo I (ou hipersensibilidade imediata): resultante da produção de IgE contra um antigénio;estas imunoglobulinas fixam-se na membrana de mastócitos e de basófilos. A ulterior reacção antigénio-IgE leva à desgranulação das referidas células com libertação de mediadores farmacologicamente muito activos . Constituem paradigmas deste mecanismo patogénico a asma brônquica, a rinite alérgica e o eczema atópico; Tipo II (ou hipersensibilidade citotóxica):resultante do facto de existir um antigénio estrutural que é “atacado”por um anticorpo específico;como consequência verifica-se fagocitose das células ou a sua lise, em geral com a mediação do complemento; Tipo III (ou hipersensibilidade mediada por imunocomplexos) resultante da formação de grande quantidade de moléculas de antigénio-anticorpo as quais, não sendo adequadamente removidas pelos mecanismos habituais de fagocitose do SRE, precipitam em determinados órgãos como rins, articulações, pele, originando respectivamente quadros clínicos diversos como glomerulonefrite, arterite e vasculite; Tipo IV (ou hipersensibilidade retardada):resultante da produção de linfocinas por linfócitos T sensibilizados em relação a determinados antigénios. Constituem paradigmas deste tipo de resposta imune a reacção tuberculínica e o eczema de contacto alérgico.

A realidade nacional

O estudo da prevalência das doenças alérgicas de crianças em Portugal e no mundo está actualmente bem caracterizado através do projecto ISAAC (International Study of Asthma and Allergies in Childhood) que foi executado ao longo de 10 anos envolvendo mais de um milhão de jovens em mais de 60 países entre 1993 e 2003. Ele teve por objectivo desenvolver a investigação epidemiológica sobre asma, rinite, conjuntivite e eczema atópico através da padronização a nível de definições dos casos e da metodologia utilizada com base em questionários, podendo comparar diferentes países e centros de cada país. Composto por 3 fases, foi concebido de forma a poder comparar populações quanto à prevalência desta doença em todo o mundo. Um dos objectivos mais importantes foi examinar as tendências temporais de prevalência da asma, rinoconjuntivite alérgica e eczema atópico ao longo de 8 anos (centros que cumpriram as fases I e III).

Em Portugal o estudo envolveu na fase I (entre 1993/95) 5036 jovens de 6-7 anos provenientes de 207 escolas, e em 11.427 jovens de 13-14 anos, oriundos de 84 escolas. Na fase III (2002) o grupo de 6-7 anos envolveu 9081 jovens tendo participado 408 escolas. O grupo de 13-14 anos era oriundo das mesmas regiões e envolveu 12.905 jovens de 142 escolas.

Ao centrarmos a análise comparativa dos resultados globais nas mesmas regiões da população inquirida que já teve pieira (sintomas – sibilância recorrente), asma (diagnóstico médico), rinite (sintomas) ou eczema (diagnóstico médico/sintomas) verificamos no grupo de 6-7 anos:

  1995 2002 Valor-p
Pieira 28,2% 28,1% 0.936
Asma 11% 9,4% 0.008
Rinite 23,8% 29,1% <0.001
Eczema 11,2% 14,1% <0.001

Quando comparamos populações de 6-7 anos inquiridas que tiveram pieira, asma, rinite ou eczema nos últimos 12 meses, foram obtidos os seguintes resultados:

  1995 2002 Valor-p
Pieira 12,9% 12,9% 0.983
Rinite 19,9% 24% <0.001
Eczema 13,9% 15,6% 0.013

Em relação ao grupo de 13-14 anos foram obtidos os seguintes resultados:

  1995 2002 Valor-p
Pieira 18,2% 21,8% <0.001
Asma 11,8% 14,7% <0.001
Rinite 30,2% 37,1% <0.001
Eczema 11,7% 12,7% <0.014

Na comparação das populações inquiridas de 13-14 anos que declararam ter tido pieira, asma, rinite ou eczema nos últimos 12 meses, os resultados foram:

  1995 2002 Valor-p
Pieira 9,2% 11,8% <0.001
Rinite 21,2% 26,5% <0.001
Eczema 7,6% 8,7% 0.002

Da análise dos valores nacionais mais significativos sobre o estudo do inquérito ambiental e estilo de vida realizado em 2002 salientamos, comparando os grupos de 6-7 e 13-14 anos (Quadro 1):

QUADRO 1 – Projecto ISAAC (Portugal): Resultados do inquérito sobre ambiente e estilos de vida

  6-7 anos 13-14 anos
a) Alimentação nos últimos 12 meses    
carne: três ou mais vezes por semana 65,8% 49%
peixe: três ou mais vezes por semana 44,8% 39,3%
fruta: três ou mais vezes por semana 82,3% 66,5%
vegetais: três ou mais vezes por semana 52% 37,7%
cereais (incluindo pão): três ou mais vezes por semana 84,8% 71,0%
arroz: três ou mais vezes por semana 58,2% 48,1%
manteiga: três ou mais vezes por semana 55,2% 37,2%
leite: três ou mais vezes por semana 86,9% 75,1%
ovos: três ou mais vezes por semana 18,5% 17,9%
hamburgers três ou mais vezes por semana 3,2% 8,5%
“fast-food”, uma vez por semana 18,6% 40,5%
aleitamento materno 78,5%  
b) Actividade física – 3 vezes por semana ou mais 9,3% 22,5%
c) Horas de televisão – 3 ou mais horas/dia 17,3% 31,3%
d) Antibióticos no primeiro ano de vida 54,9%  
e) Nível de escolaridade da mãe da criança:    
básico 27% 39%
secundário 34% 32%
universitário 19,3% 21,9%
f) Gato em casa no primeiro ano de vida 9,3%  
Gato em casa nos últimos 12 meses 15% 25,2%
g) Cão em casa no primeiro ano de vida 22%  
Cão em casa nos últimos 12 meses 29,6% 49,3%
h) Mãe fumadora no primeiro ano de vida 15,6%  
Percentagem de não fumadores no agregado familiar 36,7% 34,3%

A análise dos resultados obtidos revela um aumento global da prevalência das doenças alérgicas do grupo 13-14 anos no país, o que se atribui provavelmente a uma mudança de hábitos que leva muitos jovens a preferir cada vez mais uma actividade localizada dentro de casa (computador e televisão) e a um aumento da utilização de comida rápida/hamburgers com consequente maior susceptibilidade para as doenças alérgicas, respiratórias e de expressão cutânea. Ao contrário, no grupo dos 6-7 anos, o facto de não haver ao longo dos anos um aumento da prevalência de asmáticos pode atribuir-se a um melhor conhecimento, pelos familiares (responsáveis pelos inquéritos neste grupo etário) e pelos profissionais de saúde, acerca dos problemas relacionados com as doenças alérgicas em geral, e do modo de fazer a sua prevenção, particularmente nas crianças de risco.

Prevenção

O aumento de prevalência das doenças alérgicas e o facto de se tratar de doenças de elevada morbilidade, sobretudo na idade pediátrica, levou a uma progressiva preocupação sócio-sanitária e económica com este problema. A utilização de normas profilácticas genéricas, sobretudo na alergia respiratória, levou a que uma maior informação fosse difundida entre as populações, sobretudo no que se refere à exposição aos agentes em meio habitacional.

Como observámos anteriormente, a tendência em Portugal acompanhando os países industrializados, para uma cada vez maior exposição alergénica e desenvolvimento de uma sensibilidade alérgica dentro de casa, é fruto de uma progressivo estado de vida sedentário da criança que cada vez mais utiliza o seu tempo livre em frente da televisão e do computador. Por outro lado, a cada vez mais precoce frequência de infantários por crianças mais pequenas, localizados em habitações que não estão, na maioria das situações, devidamente preparadas para receber tantas crianças, leva a preocupações acrescidas, devendo incidir-se atenção especial sobre as condições em que se encontram as salas onde permanecem aquelas. É, no entanto, no quarto de dormir onde o jovem passa cerca de um terço da sua vida (± 8 horas/dia), que devem centrar-se mais as nossas preocupações.

Os 3 níveis de prevenção: primária – que promove a prevenção de atopia; secundária – que promove a prevenção das sensibilizações já existentes e que são consequência da aptidão genética e da exposição a alergénios; e a terciária que não é mais que a prevenção das consequências clínicas motivadas pelas manifestações alérgicas, devem ser tratados em conjunto. De um modo geral as medidas ambientais exequíveis nos referidos níveis de prevenção passam por uma boa identificação dos alergénios em causa.

A sensibilização na criança ocorre geralmente nos primeiros meses e até aos 2 anos, através de alergia alimentar sobretudo às proteínas do leite de vaca e ovos; a sensibilização IgE específica para os alergénios alimentares é detectável em cerca de 10% das crianças de 1 ano de idade. Os alergénios inalantes aparecem geralmente a partir dos 3 anos, passando a sensibilização a ser particularmente evidente aos ácaros do pó da casa, animais domésticos, pólens e fungos; com efeito a rinite e a asma alérgica passam a ter uma expressão clínica muito mais significativa que as alergias de expressão cutânea.

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