Definição e importância do problema

Como foi descrito no capítulo anterior, o termo plagiocefalia significa genericamente obliquidade ou assimetria da forma da cabeça nos planos sagital ou coronal.

A plagiocefalia posicional (PP) é a designação dada à plagiocefalia não sinostótica, variedade que surge como resultado da acção de forças extrínsecas de moldagem sobre o crânio.

Tais forças extrínsecas exercidas de modo mantido ao nível da mesma área da cabeça são tipificadas pela postura cefálica preferencial nos primeiros meses de vida (posição viciosa da cabeça no berço, por exemplo, recém-nascido em decúbito dorsal mantido).

Com efeito, num período em que o crânio imaturo e em crescimento rápido é susceptível de se deformar, poderá surgir depressão na região occipital na sequência da referida posição, com compensação do crescimento ósseo ao nível da região frontal. O efeito de pressão poderá também verificar-se ainda in utero por posição fetal mantida.

A incidência desta forma posicional é superior à das restantes, anteriormente descritas.

A propósito do problema da plagiocefalia posicional e da sua génese, importa abordar um facto histórico. Com efeito, a Academia Americana de Pediatria lançou em 1992 a campanha Back to Sleep aconselhando a posição dos lactentes para dormir em decúbito dorsal, no sentido de prevenir a morte súbita. Esta medida teve bastante sucesso: conseguiu-se uma diminuição significativa (~40%) da morte súbita; mas simultaneamente observou-se um incremento exponencial (~600%) da plagiocefalia.

Aspectos epidemiológicos

De acordo com diversos estudos nas últimas décadas, a incidência da plagiocefalia posicional é cerca de 20% pelos 4 meses de idade, diminuindo nos três anos seguintes (~7% aos 12 meses e ~3,3% aos 24 meses), e tornando-se irrelevante pelos 3 anos de idade.

Estes valores são muito superiores aos verificados nas outras formas de plagiocefalia: – 0,003%.

Etiopatogénese

Determinados factores de risco (muitos dos quais não susceptíveis de prevenção) têm relevância nos pacientes com plagiocefalia posicional: torcicolo congénito, preferência posicional para dormir com cabeça para o mesmo lado, actividade motora escassa, posição supina desde o nascimento e às 6 semanas, alimentação exclusiva com biberão, tummy time (isto é, tempo de posição em decúbito ventral permitido sob vigilância com o bebé acordado – ver adiante) < 3 vezes por dia e atraso no neurodesenvolvimento.

Sem ser possível estabelecer seguramente uma relação de causa-efeito, foram comprovadas diferenças significativas quanto às etapas-chave da motricidade grosseira (sedestação, gatinhar, rolar, etc.) entre pacientes com e sem PP.

No que respeita a factores causais mais relevantes relacionados com as forças extrínsecas de moldagem sobre o crânio, salientam-se as seguintes situações:

  • no período pré-natal à oligoâmnio, e gestação múltipla;
  • no período pós-natal à a posição de dormir (predominantemente), e o torcicolo miogénico congénito (sendo que existe um mecanismo de potenciação entre plagiocefalia e torcicolo).

Anamnese, observação e diagnóstico diferencial

Dado que o diagnóstico de plagiocefalia é essencialmente clínico, e considerando a semelhança de características entre plagiocefalia lambdóide (sinostótica) e plagiocefalia posicional (as quais têm indicações terapêuticas diferentes), importa que o pediatra e o clínico geral estejam capacitados para proceder ao diagnóstico diferencial.

No Quadro 1 são referidos os parâmetros que permitem a destrinça entre plagiocefalia posicional (não sinostótica) e sinostótica.

QUADRO 1 – Diagnóstico diferencial entre plagiocefalia posicional e lambdóide (sinostótica)

CaracterísticasPlagiocefalia posicionalCraniossinostose occipital lambdóide
InícioGeralmente depois do nascimentoAo nascimento
Posição cefálica preferencialComumRara
Sutura lambdóide Não palpávelPalpável (crista óssea)
Bossa frontalIpsilateral (do mesmo lado do achatamento occipital)Contralateral (do lado contrário ao do achatamento occipital)
Pavilhão auricular ipsilateralDeslocamento anterior (maior angulação)Deslocamento posterior (menor angulação) – critério variável
Forma do crânio
Visão superior/vértex

Semelhante a paralelograma

Semelhante a trapézio
DiagnósticoHistória clínicaHistória clínica e Imagiologia
Tratamento Não cruento (encaminhamento para centro de medicina física e reabilitação)Cirúrgico (encaminhamento para centro especializado)

Prioritariamente deve proceder-se à inspecção:

  • da forma do crânio;
  • visão por cima (semelhante a paralelograma na plagiocefalia posicional, e trapezoidal na forma sinostótica) e;
  • da angulação da orelha relativamente à região mastoideia, verificando se há afastamento (ângulo maior na forma posicional), ou aproximação (ângulo menor na forma).

Dois parâmetros que também podem ser considerados são:

  • na forma sinostótica à bossa parieto-occipital associada a bossa frontal no lado oposto ao do achatamento occipital;
  • na forma posicional à bossa occipital no lado oposto ao do achatamento occipital.

A palpação da sutura lambdóide também deve ser realizada: a verificação de crista óssea aponta para forma sinostótica.

Do exame físico faz também parte a avaliação do tono dos músculos do pescoço. O tono passivo, responsável pela postura, pode avaliar-se pela resistência aos movimentos passivos. A resistência à mobilização passiva aponta para a presença de torcicolo (factor de risco para forma posicional). A verificação de atraso no desenvolvimento motor aponta também para a presença de factor de risco para plagiocefalia posicional por diminuição da actividade motora e tendência para postura preferencial mantida.

De acordo com o que foi referido no capítulo anterior, em qualquer situação de deformação craniana deve proceder-se à avaliação do índice cefálico utilizando-se o craniómetro (consultar infocefalia.com). Nos casos de plagiocefalia deve igualmente proceder-se à medição dos diâmetros diagonais (à direita e à esquerda) para obter a diferença diagonal transcraniana (medindo as 2 diagonais a partir das eminências frontais e com o mesmo ângulo de cada lado em relação à linha ântero-posterior). Numa cabeça sem deformação, o valor das duas é igual. Na Figura 1 exemplifica-se um caso em que existe diferença entre os referidos dois diâmetros.

O Quadro 2 mostra a relação entre tal diferença e o grau de plagiocefalia.

FIGURA 1. Diferença transcraniana diagonal (diâmetros transcranianos occipitofrontais). Na Figura do lado direito verifica-se diferença do comprimento entre os dois diâmetros

FIGURA 2. Aspecto geral do craniómetro (A) e utilização do mesmo (B).
O afastamento ou aproximação das hastes de aplicação à cabeça, em ligação a um “ponteiro”, permite a deslocação do mesmo, deslizando ao longo de escala (régua curva) com numeração em centímetros (cm) e milímetros (mm)

QUADRO 2 – Medição com craniómetro (diferença entre as duas diagonais) e graus de plagiocefalia

0 – 9 mm Plagiocefalia leve
10 – 19 mm Plagiocefalia moderada
> 20 mm Plagiocefalia grave

Nos casos em que os parâmetros clínicos apontam para craniossinostose, está indicado o estudo imagiológico.

Actuação prática

O pediatra ou clínico geral com responsabilidade na assistência ao paciente com plagiocefalia posicional obtém a colaboração do centro de medicina física e reabilitação onde constitui rotina:

  • proceder a medições que fornecem dados objectivos permitindo quantificar o estudo evolutivo;
  • determinar o grau de deformidade segundo a classificação de Argenta, considerando 5 níveis.

Prevenção

Numa perspectiva preventiva deste problema crescente relacionado com a campanha Back to Sleep, anteriormente referida, a Academia Americana de Pediatria em 2000 lançou nova campanha designada Back to Sleep – Tummy Time to Play, passando a aconselhar durante o período em que o bebé está acordado, o decúbito ventral de 10-15 minutos, pelo menos 3 vezes por dia, sob estrita vigilância.

Entretanto, outras medidas foram desenvolvidas:

  • alternar a rotação da cabeça da criança quando colocada a dormir;
  • alternar diariamente a sua orientação na cama;
  • reduzir o tempo nas cadeiras de transporte e noutros dispositivos restritivos;
  • promover ambientes que permitam o movimento espontâneo.

Em suma, a actuação descrita, a explicar aos pais, tem diversas vantagens: estimulação do desenvolvimento psicomotor; diminuição do tempo de postura mantida da cabeça; e redução do efeito de pressão constante da mesma área da cabeça contra plano duro.

Intervenção

Perante um quadro clínico de plagiocefalia posicional, a intervenção inclui as seguintes medidas simples, a ensinar aos pais: reposicionamento, aconselhando, no decúbito dorsal, a rotação da cabeça para posição sobre a região occipital mais proeminente; estimulação sensorial (visual, auditiva), preferencialmente feita do lado da região occipital mais proeminente; todas as medidas descritas devem ser aplicadas igualmente na cadeira de transporte; os posicionamentos ao colo devem permitir o alívio de pressão na zona occipital achatada; mantém-se o aconselhamento de períodos em decúbito ventral (tummy time) de acordo com a metodologia descrita antes, logo que a criança evidencie estabilidade cefálica, sempre sob vigilância.

A fisioterapia está indicada, quer nos casos de torcicolo associado, quer no contexto de ensino aos pais, pressupondo a colaboração activa dos mesmos.

A ortótese craniana (capacete) é opção apenas em casos mais graves.

Devem ser enviados para consulta de Medicina Física e de Reabilitação: os pacientes que apresentam torcicolo associado à plagiocefalia; e aqueles que, após aplicação de medidas simples de posicionamento, evidenciam ausência de resposta ou agravamento.

Notas finais

  • Todas as situações de craniossinostose eventualmente detectadas devem ser encaminhadas para consulta de Neurocirurgia.
  • O incremento do perímetro cefálico (PC) é exponencial nos 3 primeiros meses de vida e mantém-se a uma velocidade elevada nos 9 meses seguintes; a partir dos 12 meses o referido incremento é muito mais lento.
  • Quanto mais precoce for a intervenção, melhores e mais rápidos serão os resultados, tendo em conta a potencialidade de remodelação, mais relevante nos primeiros meses de vida.

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